A comédia romântica infanto-juvenil ABC do Amor é uma espécie de Sex and the City se encontra com Anos Incríveis, o que também serve para dizer que o filme tem uma linguagem um pouco mais próxima da televisão do que do cinema – mas nem por isso é ruim, pelo contrário. Há mais qualidades e razões para assistir a esse longa do que defeitos. O maior problema, porém, é a forma como a Fox despeja esse filme nos cinemas, sem o menor cuidado. O falto de ser protagonizado por um menino de 11 anos levou os executivos da empresa a acharem que é um filme infantil e lançá-lo em cópias dubladas – e apenas uma legendada. O grande erro é que este não é ‘apenas’ para o público mirim – aliás, é preciso estar ao menos na pré-adolescência para entender e gostar do longa. Ou seja, os adultos têm tudo para se identificar com o personagens e suas dores de amor e também embarcar na história.
Escrito por Jennifer Flackett e dirigido por seu marido Mark Levin (que foi um dos roteiristas de Anos Incríveis), o filme acompanha o período de duas semanas na vida do jovem Gabe (o ótimo Josh Hutcherson, de Zathura), que se apaixona pela primeira vez por uma coleguinha de escola. Como ele mesmo diz, até outro dia, as meninas eram ‘repugnantes e davam piolhos em quem elas tocassem’, embora ele admita não saber o que é piolho, na verdade. Porém, quase que do nada, ele começa a se interessar por Rosemary (Charlie Ray), uma garota que conhece desde a pré-escola, mas com quem não tem muito contato há algum tempo. Eles começam a ficar amigos na aula de caratê e, de repente, ele não quer mais desgrudar dela e chega à conclusão de que está apaixonado.
Gabe passa a viver todos aqueles dilemas da paixão (‘ela vai ligar?’, ‘vou passar em frente à casa dela para vê-la saindo de casa’, ‘vou fazer um caminho que cruze com o dela’ etc) – mas isso inserido em seu universo adolescente, no qual tudo é realmente novidade. Muita gente diz que todo amor é um novo amor, mas, nesse caso, esta é uma paixão novinha em folha, na qual nenhum dos dois têm experiência alguma para lidar com seus sentimentos, sensações e emoções.
Se adultos quando se apaixonam e não sabem se são correspondidos transformam tudo num grande drama, no caso de Gabe isso é elevado à enésima potência. É ao mesmo tempo hilário e de partir o coração ver o garoto se acabando em lágrimas e olhando uma foto da amada. A grande graça do filme vem desse comportamento adulto inserido no universo juvenil – sem parecer bizarro, é claro.
Gabe, na verdade, não tem em quem se espelhar para compreender esse tipo de relação. Seus pais (Cynthia Nixon e Bradley Whitford) estão em vias de se separar, mas ainda moram sob o mesmo teto, embora ela já esteja namorando – ou seja, uma situação para dar um nó na cabeça de qualquer pessoa.
Já a cidade de Nova York, como sempre, serve de cenário para esse idílio juvenil. Nesse quesito, embora não haja nada de novo (Tom Hanks e Meg Ryan, entre outros, já exploraram isso à exaustão), também não há nenhum problema em mostrar o Central Park como o lugar ideal para curtir o primeiro amor. Principalmente quando ainda se é bem jovem, a vida toda parece uma eternidade e por isso ainda se tem muito tempo até descobrir o verdadeiro significado de amar. E, como o personagem diz, ‘primeiro amor a gente só tem um’.
