O crime acontece antes mesmo dos créditos iniciais, quando um carro em alta velocidade derruba um homem de sua bicicleta, jogando-o na calçada. A narrativa propriamente dita começa algumas horas antes do evento, mostrando o casal James (Tom Wilkinson) e Anne Manning (Emily Watson) em sua vida simples, mas sofisticada numa região bucólica da Inglaterra. Ele é um economista em Londres, o que o obriga a fazer uma pequena viagem todo dia. O casal divide seu tempo entre cuidar do cão, ver TV e se reunir com os amigos.
Depois que o diretor/roteirista passa certo tempo apresentando seus personagens, ele introduz um terceiro elemento à trama: o playboy William Bule (Rupert Everett), que mais tarde descobre-se ser amante de Anne. A traição, porém, só vem à tona quando a narrativa retoma o acidente inicial, que matou o marido da empregada dos Manning.
A descoberta da fatalidade lança uma bola de neve feita de mentiras e meias-verdades na qual o roteiro é construído. Os personagens mentem para alguns, contam a verdade para outros e enganam a si mesmos. Ao espectador cabe a posição privilegiada de acompanhar o jogo de falácias, sabendo mais sobre o que é real do que qualquer dos envolvidos na trama.
No roteiro, baseado num romance de Nigel Balchin, publicado nos anos 50, Fellowes é incisivo, tem uma precisão cirúrgica – embora adicionar um pouco do cinismo de Gosford Park aos personagens não faria mal algum. Na direção, ele é mais disperso e reverente, deixando aos excelentes atores a tarefa de dar credibilidade aos atos dos personagens. Wilkinson é a gravidade em pessoa, enquanto Emily transita do blasé ao passional com facilidade, transformando facilmente a sua personagem na mais agradável de todas. O que move todas essas pessoas é o ego, a vontade de satisfazer a si mesmos, o que faz com quem se envolvam numa teia de mentiras. Personagens como estes correm o risco de facilmente caírem no caricato, o que não acontece aqui. Sorte de Fellowes ter esse elenco – mas é bom não contar sempre com isso.
