O enredo deslancha com Esmeralda (Camila Pitanga), menina mimada da Bahia, xodó dos pais que nunca tem juízo. Namoradeira e ambiciosa, entra pela vida adulta como amante de um deputado (Stepan Nercessian), uma história que acaba em pancada e obriga Esmeralda a uma virada na vida. Mais uma vez, como em Sal de Prata Camila participa de uma abertura que parecia que ia ser boa, mas não é.
Na próxima parada geográfica, Maceió, a protagonista é a estudante de jornalismo Ana (Luana Carvalho) que está metida numa crise existencial.Quando ela pesquisa um projeto da faculdade com as rendeiras do Pontal da Barra, entra a parte documental do filme – que neste segmento é excessivamente longa, com testemunhos quase idênticos um ao outro. Fica parecendo um comercial, que era obrigatório manter. Aí a estudante encontra seu contraponto, uma rendeira (Dira Paes) que é um exemplo acabado de mulher livre e bem-resolvida. Pena que os diálogos fraquíssimos não consigam estabelecer direito nem a personalidade de uma nem da outra. O que significa um imperdoável desperdício do enorme talento de Dira Paes.
No Rio de Janeiro, recai-se no muito óbvio estereótipo da escola de samba, com a história de Telma (Roberta Rodrigues), uma porta-bandeira que, às voltas com a preocupação com a mãe cega (Léa Garcia) e o recente desemprego, fica nervosa bem no dia do desfile no Sambódromo. E cai na avenida.
Em Curitiba, segue-se o cotidiano de duas garçonetes de um café (Carla Daniel e Débora Evelyn). A primeira é irracionalmente apaixonada pela voz de um radialista – uma situação que nunca convence e que parece bastante datada. Pior é a incorreção política no tratamento do detalhe de que o locutor é anão – o que provoca o vômito em sua fã. As entidades representantes dos direitos de pessoas diferenciadas vão chiar e com toda a razão. Como é que a diretora e os roteiristas não atentaram para este detalhe?
A história final, em São Paulo, é a de Laura (Beth Coelho), uma divorciada na crise da meia idade e à procura de um emprego quase impossível. O tratamento da personagem é quase cafajeste – um detalhe mais uma vez inadmissível num filme assinado por mulheres.
No pressbook do filme, conta-se que é o trabalho inaugural da diretora (que só havia feito antes um média, Ismael & Adalgisa, e um documentário, Sexualidades), da diretora de fotografia (Heloísa Passos), trilha sonora (Liliana Secco) e diversos outros colaboradores. Isto justifica o desastre ? Na verdade, sobrou pretensão e faltou trabalhar mais exaustivamente o projeto, o roteiro, as inserções documentais. É tudo muito raso, inconsistente, sem optar nem pela simplicidade nem pela ousadia. Muito pelo contrário. Até a trilha é uma coleção de temas óbvios, músicas ultraconhecidas.
