O resultado, é bom que se diga, é bastante digno. Certamente, seria impossível reproduzir na tela toda a complexidade do romance, que revolucionou a narrativa moderna ao implodi-la, organizando sua estrutura a partir do fluxo de consciência de seus personagens – Leopold Bloom (Stephen Rea), sua mulher Molly (Angeline Ball) e o jovem intelectual Stephen Dedalus (Hugh O’Connor). Mas é certo que o filme torna ao menos remotamente acessíveis a história e os sentimentos de Bloom, Molly, Dedalus e daqueles que lhes estão mais próximos. Reproduz, assim, na fluidez das imagens a fluidez de seus sentimentos, acompanhados num único dia na vida de Bloom, 16 de junho de 1904.
Nesse único dia, em Dublin, Bloom tratará de sua esposa insatisfeita, que o trai com seu conhecimento, irá a um enterro, terá um encontro erótico à distância com uma mulher na praia, discutirá anti-semitismo num bar (Bloom é judeu), acompanhará na madrugada os jovens estudantes bêbados, amigos de Dedalus. A partir dessa jornada rotineira e, no entanto, singular, será possível flagrar a grandeza, o vazio e o absurdo da vida.
Com certeza, o filme dividirá opiniões e não só entre joyceanos ortodoxos, como aconteceu na Irlanda, pátria do escritor. Ironicamente, o próprio Joyce, que abriu o primeiro cinema em Dublin em 1909, chegou a discutir uma adaptação do romance com ninguém menos do que o russo Sergei Eisenstein – a ironia é que o escritor considerava sua própria obra infilmável. “O livro não poderia ser adaptado num filme com propriedade artística”, garantia Joyce.
Esta posição do autor e a complexidade intrínseca à obra fizeram com que pouquíssimos se aventurassem a levá-la ao cinema. Antes de Walsh, só Joseph Strick realizara a façanha, em 1967 – uma versão que foi severamente repudiada, tanto que permaneceu banida na Irlanda por 33 anos. Uma proibição que mantém viva a polêmica que cerca Ulisses desde sua origem. Afinal, o livro mesmo foi publicado pela primeira vez em Paris, em 1922, permanecendo proibido na Inglaterra por dez anos. Ainda assim, só foi publicado nesse país quatro anos depois da suspensão do veto, em 1936. E hoje, passados 84 anos de sua primeira edição, sua maior maldição talvez seja tratar-se ainda de uma obra mais discutida do que lida. A obra-prima que poucos leram.
