20/07/2026
Drama

Crianças Invisíveis

As dificuldades vividas pelas crianças em todo o mundo são o tema deste filme coletivo, assinado por oito diretores – inclusive a brasileira Kátia Lund (co-diretora de Cidade de Deus). Nas histórias, retrata-se a criatividade de meninos brasileiros sobrevivendo de catar lixo, o drama de meninos-soldados na África e de menores delinqüentes na Itália e na Bósnia. Apesar da tristeza das situações, há espaço para o sonho e a poesia.

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A dramática situação das crianças no mundo foi o motivo do esforço dos produtores italianos Chiara Tilesi e Stefano Veneruso para montar este projeto cinematográfico coletivo – que recebeu, ainda, o apoio da atriz Maria Grazia Cucinota (a musa de O Carteiro e o Poeta) e da UNICEF e WFP (World Food Program). A renda do filme, aliás, será revertido em favor destas duas organizações, ligadas à ONU (Organização das Nações Unidas).

Dos sete episódios, assinados por oito diretores, há um brasileiro. Trata-se de Bilu & João (foto), que foi filmado nas ruas de São Paulo, conduzido pela diretora Kátia Lund (co-diretora do candente sucesso internacional Cidade de Deus, de Fernando Meirelles). De todos os segmentos, é talvez o que consegue imprimir mais doçura, mantendo aberta uma janela para a invencível disposição de dois pré-adolescentes (Vera Fernandes e Francisco Anawake) de manter a dignidade e a luta pelos seus sonhos, mesmo sobrevivendo de um duro trabalho – catar nas ruas restos de papelão e metal.

Sem pieguice, a diretora brasileira firma um dos traços marcantes deste trabalho coletivo – crianças são crianças e mantêm uma inabalável disposição para sonhar e resistir, por mais que as condições em torno delas sejam tantas vezes quase insuportáveis. Com realismo, porém, com equilíbrio, o episódio delineia um quadro de pobreza urbana em que existem ainda muitas formas de intervenção possíveis.

Os demais segmentos do filme trazem também a marca de seus realizadores. Fazendo jus à sua fama de polêmico, o diretor americano Spike Lee assina um dos mais contundentes, Jesus Children of America. A protagonista é Blanca (Hannah Hodson), de 13 anos, que é lançada dentro de um verdadeiro pesadelo devido ao fato de ser portadora do vírus HIV. Por conta disso, é discriminada na escola, chamada de “AIDS baby”. Político como sempre, o diretor americano retrata o personagem do pai da menina como um veterano da Guerra do Golfo que se tornou viciado em heroína e, por isso, contraiu a doença.

Uma família disfuncional está no passado do protagonista do episódio Ciro, do italiano Stefano Veneruso (um dos produtores). Ciro (Daniele Vicorito) é um adolescente que deixou para trás pais negligentes e passou a sustentar-se através do roubo nas perigosas ruas de Nápoles. O universo de menores infratores figura igualmente no ambiente de Blue Gypsy, do diretor bósnio Emir Kusturica. Ainda assim, o cineasta compõe uma atmosfera agridoce. Atenuando o estereótipo de tantas histórias sombrias no cenário dos reformatórios, Kusturica inventa um protagonista, o menino Uros (Uros Milovanovich) que não quer sair dali, pois sente-se curiosamente protegido nesta situação. Fora de seus muros, sabe que o pai o forçará novamente a roubar.

Muito mais drástica é a situação dos garotos do episódio Tanza, o único ambientado na África, e dirigido pelo argelino Mehdi Charef. Ele opta por um registro naturalista e, sem identificar o país, constrói uma história dolorosamente comum aos quatro cantos do continente africano, onde guerras civis colocam armas nas mãos de milícias juvenis. No cabo da metralhadora de um destes meninos, vê-se um adesivo com o rosto de Ronaldo, o fenômeno do futebol brasileiro.

Num tom inteiramente distinto de seu estilo, o famoso diretor de filmes de ação chinês John Woo assina o episódio Son Son & Little Mao. Filmada na China, a história apresenta pontos de contato com o Brasil, expondo a aguda diferença social entre duas garotinhas da mesma idade, uma rica, outra órfã e vendedora de flores nos faróis de uma metrópole.

O episódio mais atípico é Jonathan, dos ingleses Jordan Scott e Ridley Scott (ela, filha do famoso diretor Ridley). Um fotógrafo de guerra (David Thewlis) vive assombrado pelo horror das situações que retratou em conflitos e encontra a salvação de sua alma numa fantasia em que revisita a si mesmo quando menino. Um sentimento que poderá, afinal, contagiar os espectadores deste filme delicado e fundamental.

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