04/06/2026
Documentário

Dia de Festa

Em novembro de 2004, a cidade de São Paulo foi sacudida pela ocupação simultânea de sete prédios e fábricas abandonados da região central. Por trás da ação, está o Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), cujo perfil é apresentado através da história de quatro de suas líderes, Ivaneti, Silmara, Janaína e Ednalva.

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Uma cidade como São Paulo, com 10,6 milhões de habitantes, e onde quase dois milhões habitam moradias precárias ou até a rua, é compreensivelmente o principal centro dos diversos movimentos de sem-teto. O enxuto e contundente documentário de Toni Venturi (Cabra-Cega) e do franco-argentino Pablo Georgieff revela os bastidores de um deles, o Movimento dos Sem-Teto do Centro de São Paulo (MSTC), num momento de intensa movimentação: novembro de 2004, quando seus integrantes ocuparam simultaneamente sete endereços.

Estes desvalidos e apaixonados bandeirantes da nova era são, em grande maioria, mulheres. O mesmo ocorre com suas principais lideranças. O depoimento de quatro destas líderes – Ivaneti, 30 anos, Silmara, 34, Ednalva, 33, e a precoce Janaína, de apenas 18 – fornece a linha condutora. São sempre histórias muito parecidas, de filhas de migrantes do campo, cujas infâncias foram suprimidas pelo trabalho antes do tempo e o abandono da escola, num ambiente de privações econômicas extremas. Um retrato do Brasil desigual cujo atraso teima em não desaparecer, tanto quanto suas vítimas insistem em não desistir de lutar contra ele, até porque não lhes resta outra alternativa.

As histórias das ocupações em geral, inclusive aquelas que são corajosamente acompanhadas pelos três câmeras do filme (em que se inclui também o diretor Toni Venturi), em geral não têm final feliz. Na maioria das vezes, os ocupantes, que ocupam os prédios com uma pequena mudança que cabe num caixote ou sacola, são desalojados pela polícia, por bem ou por mal. A disposição guerreira da polícia, em geral, não deixa dúvidas. O próprio câmera do filme pelo menos uma vez filma a ameaça a si próprio por um PM de rifle em punho. Logo depois, vê-se outro policial escondendo um revólver atrás das costas.

Não cabe à polícia, é certo, encontrar soluções de moradia para os pobres. A polícia, aliás, é chamada para, pura e simplesmente, garantir a reintegração de posse de imóveis muitas vezes vazios e abandonados há vários anos. Segundo a estatística mencionada pelo filme, são cerca de 420.000 imóveis vazios e abandonados em São Paulo.

Independente da simpatia que se tenha, ou não, pelos métodos do MSTC, não há como deixar de notar a semelhança desses confrontos entre a polícia e os sem-teto – todos desarmados – com cenas de guerra de outros países. Um detalhe que não deixa margem a dúvidas quanto à fórmula como a questão social é enfrentada no País: com extrema e calculada violência e quase nenhuma alternativa inteligente.

Ainda assim, o movimento registra finais felizes, como um edifício na Brigadeiro Tobias, que foi ocupado, depois reformado com recursos do governo, e que abriga agora 84 famílias.

O filme venceu uma Menção Honrosa da Associação Brasileira de Documentaristas – seção São Paulo, no 11o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários (2006), juntamente com outro filme com a mesma temática, À Margem do Concreto, de Evaldo Mocarzel.

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