Praticamente duas semanas depois do nascimento de sua primeira filha biológica com a atriz Katie Holmes, Tom Cruise dá à luz seu segundo rebento. Missão Impossível 3 teve uma gestação mais longa, de uns três anos, e passou por dois diretores – David Fincher (Clube da Luta) e Joe Carnahan (Narc) – até parar nas mãos de J.J. Abrams, das séries Lost e Alias. Ele faz um trabalho interessante ressuscitando uma franquia que quase morreu nas mãos de John Woo, que com Missão Impossível 2 fez um filme genérico, quase sem personalidade, o que não acontece aqui.
Missão Impossível 3 tem exatamente os elementos que se esperam de um filme de ação: muita correria, explosões, um vilão malvado e um mocinho simpático, além de uma trama sem pé nem cabeça, cheia de pirotecnia e ruídos altos que impedem a platéia de ouvir os próprios pensamentos e concluir que na tela há muita bobagem – embora divertida. Abrams orquestra tudo de forma correta e muito explicada e assim dá menos trabalho ao seu público.
Missão Impossível 3 serve para tirar de vez a dúvida que alguém poderia ter de que Cruise é uma estrela de cinema – e nada mais, claro. Ele precisa se reinventar, uma vez que astros do porte de George Clooney, que também esbanja beleza, provam que é possível ser belo e inteligente ao mesmo tempo. Cruise é ótimo nas cenas em que tem que correr, pular, atirar, beijar. No entanto, nos momentos em que Abrams insiste em ele se mostre mais dramático é quando a história toda desanda.
Ethan Hunt (Cruise) está apaixonado e indisponível para qualquer trabalho de campo – agora passa o tempo apenas treinando novos agentes. Fica noivo e pensa em se casar, mas terá de adiar seus planos quando uma de suas pupilas é capturada em ação. Com apoio de uma equipe, ele vai até a Alemanha para resgatá-la. Depois, irá fazer de tudo para pegar um traficante internacional de armas.
Para dar uma consistência ao personagem e humanizá-lo, o roteiro – assinado pelo diretor, Alex Kurtzman e Roberto Orci – inventou um romance para o agente Ethan Hunt. A primeira cena depois de um prólogo, que é retomado no clímax, mostra-o noivando com Julia (Michelle Monaghan, de Terra Fria). São momentos em que Ethan Hunt-agente supostamente não existe. Quem deve estar em cena é Ethan Hunt-ser humano. Mas Cruise não é o tipo de ator conhecido por dar densidade dramática aos seus personagens (Magnólia ainda é passível de discussão).
Quando se quer alguma densidade e interpretações convincentes, os diretores costumam chamar atores como Phillip Seymour Hoffman, Jonathan Rhys Meyers e Laurence Fishburne, que não por acaso estão neste filme, como o vilão, o colega de trabalho e o chefe, respectivamente. Keri Russell, a Felicity da série homônima, faz uma pequena participação como uma agente secreta treinada por Hunt, num papel que chegou a ser de Scarlett Johansson e para o qual se cogitou Katie Holmes - mas ela preferiu ser apenas a Sra. Cruise.
Depois do fiasco, em termos artísticos, de Guerra dos Mundos, o ator volta àquilo em que sempre se deu bem, a série Missão Impossível. Cruise já tentou comédias (Jerry Maguire), filmes de arte (De Olhos Bem Fechados), suspense (Colateral), dramas de guerra (Nascido em 4 de Julho), mas nunca funcionou tão bem quanto em filmes de ação, em que o barulho é tão alto e os cortes tão rápidos que mal dá para pensar entre um fotograma e outro. Assim, não se percebe que quem está na tela é um canastrão que pode ter comido a placenta da filha, seguindo as indicações de sua igreja – embora, ele negue tudo. Mais louco do que isso é imaginar que alguém pode implantar uma bomba no cérebro de outra pessoa através da cavidade nasal - melhor nem pensar.
