03/06/2026
Documentário

Meninas

Evelin, 13 anos, Luana, 15, Edilene, 14, Joice, 15. Todas adolescentes de baixa renda, moradoras no Rio de Janeiro, encaram a drástica mudança de seu cotidiano e as novas perspectivas de uma vida adulta e do futuro papel de mães.

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Saindo do sucesso da cinebiografia Cazuza – O Tempo Não Pára, visto por três milhões de pessoas em 2003, a diretora carioca Sandra Werneck mergulhou num projeto inteiramente diferente: voltou às origens, ou seja, ao gênero documentário, e fez este denso e inquietante retrato da juventude de baixa renda no Brasil, a partir do microcosmo dos morros e periferias cariocas.

As protagonistas são quatro adolescentes grávidas e de baixa renda. Moradora da Rocinha, Evelin, de apenas 13 anos, engravidou de um namorado de 22, que acabou de sair do tráfico de drogas. Luana, 15 anos, garante que sua gravidez “foi planejada” – para aflição de sua mãe, uma faxineira que ainda tem de criar uma outra filha de cinco anos.

O caso mais impressionante é o de Edilene, 14 anos, e Joice, 15, que engravidaram praticamente ao mesmo tempo do mesmo rapaz, Alex, um ajudante de marceneiro que agora se desdobra para atender a duas famílias, além de tentar prover a própria sobrevivência.

Meninas vai muito além de uma simples investigação sobre a gravidez precoce – problema crucial no Brasil, onde uma em cada cinco gestantes é adolescente. Fica muito claro nas entrevistas que, mesmo não tendo total consciência de todas as implicações da maternidade a médio prazo, não faltam às garotas informações sobre sexo e concepção. Ou seja, havia a possibilidade de evitar a gravidez, mas isso não foi encarado com muita seriedade ou foi pura e simplesmente ignorado. No universo destas garotas, ser mãe representa afirmação e chegada à vida adulta.

Em nenhum momento, Meninas se propõe a fazer um julgamento de seus personagens, ou qualquer discurso moralista. Contando com depoimentos muito bons, tanto das garotas, quanto de suas mães, e um ou outro namorado ou pai, consegue-se identificar, porém, a falta de sonhos pessoais e profissionais dos jovens de baixa renda. Por isso, o filme torna-se um alerta para um assustador ciclo de pobreza, que se eterniza há tempos de geração em geração – salta aos olhos que as mães destas meninas também engravidaram muito jovens. Neste contexto, funciona o caldo de cultura em que persistem problemas sociais como a baixa escolarização e profissionalização, que não raro funcionam como caminho mais curto para a criminalidade, como o sempre presente tráfico de drogas nos morros cariocas.

Antes de estrear no Brasil, Meninas percorreu um circuito de festivais, começando por Berlim, em fevereiro, onde foi aclamado na mostra Panorama, não-competitiva. Depois, abriu a seção carioca do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em março, e competiu no último Cine PE – Festival do Audiovisual, em Recife, em abril, de onde saiu, injustamente, sem prêmios.

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