Feita essa ressalva, a boa notícia é que não se esgota o interesse em assistir ao filme de Samira, uma das jovens cineastas mais interessantes da cena internacional. Até porque a questão feminina e a divisão entre Ocidente e Oriente está longe de estar esgotada. Assim, acompanha-se com simpatia o esforço da moça Noqreh (Agheleh Rezaie) para estudar, disfarçando como ida à reza seu comparecimento à escola. Para enganar o velho pai fundamentalista, ela veste túnica bege sob a burca e esconde os sapatos de salto na bolsa que ele nunca vê. Ele a conduz em sua carroça, mas ela passa por dentro do prédio da oração rumo à escola laica – onde é repreendida por não usar o uniforme, a túnica negra.
Há na personagem de Noqreh uma procura de evolução, até certo ponto ingênua, mas bastante sincera, no sentido de abraçar a educação como meio de tentar ser presidente da República – tendo como exemplo no mundo muçulmano a figura de Benazir Bhutto, ex-premier do Paquistão. Gradativamente, o filme abandonará esse foco único, incluindo também a visão do pai (Abdolgani Yousefrazi), devastado pela angústia da morte do filho, que ele não ousa revelar à nora (Marzieh Amiri), ela mesma abalada pela doença do filho bebê.
Estes pontos de vista somados simbolizam o retrato da progressiva deterioração da situação do país, invadido pelos americanos, destruído sem trégua, com sua economia incapaz de alimentar sua população, transformada em nômade e esfomeada, sem destino e sem futuro. Aquele que começou como uma quase didática crônica feminista transforma-se numa contundente reflexão sobre a impiedade da geopolítica mundial – onde nem mesmo a poesia, evocada pelo poema do espanhol Federico García Lorca que dá nome ao filme, serve de bálsamo ou consolo.
O filme venceu o Prêmio do Júri e também do Júri Ecumênico do Festival de Cannes em 2003.
