Se a vida de um escritor parecia difícil em Pergunte ao Pó, ela é mais complicada ainda em Factotum – Sem Destino, do norueguês Bent Hammer (Histórias de Cozinha). O primeiro é baseado no livro homônimo (com traços autobiográficos) de John Fante, enquanto o outro vem da obra de Charles Bukowski (1920-1994). Os dois escritores mantiveram uma relação bem próxima, quando Bukowski recuperou Fante e sua obra, que andavam esquecidos nos anos 60. Assim, é possível estabelecer um certo paralelo entre os filmes.
Pergunte ao Pó mostra uma visão mais romantizada da profissão de escritor e das dificuldades de publicar um trabalho, encontrar reconhecimento. Mesmo quando o personagem passa fome e sofre, existe um certo charme nisso, principalmente por conta dos atores famosos, das imagens polidas e do desenho de produção caprichado. Factótum, por sua vez, não tem medo de levar o seu personagem ao inferno. Aqui, a profissão é uma jornada ladeira abaixo, cujo asfalto é feito de alcoolismo, decadência e amores autodestrutivos. Assim, o filme de Hammer fica mais próximo do realismo depressivo da obra de Bukowski – apesar de fazer algumas concessões, como situar o roteiro no presente.
Matt Dillon é Henry Chinaski, o alter ego de Bukowski, um jovem escritor que vive de pequenos trabalhos braçais para sustentar os seus vícios, que incluem jogos, mulheres e escrever histórias que não interessam a nenhum editor. A sua jornada o leva cada vez mais ao fundo do poço, com trabalhos de que ele não gosta, mulheres tão complicadas quanto ele e álcool, muito álcool. Entre suas musas estão Jan (Lily Taylor) e Laura (Marisa Tomei). Raramente sóbrio, entre um porre e outro, o escritor tenta provar que seus textos são feitos de pura poesia.
O roteiro, assinado pelo diretor e Jim Stark, mistura trechos do livro homônimo de Bukowski e de outras obras como “O Capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”. O escritor fez diversas incursões ao cinema, seja escrevendo roteiros ou tendo livros adaptados. Os filmes mais famosos baseados em obras dele são Crônica de um Louco Amor (1987) e Barfly (1987), que trazia Mickey Rourke no papel de um poeta também chamado Henry Chinaski.
Factótum é um filme árido e, muitas vezes, cruel com Chinaski, seus amigos e com o público. Sem buscar soluções fáceis, Hammer leva seus personagens às últimas conseqüências, mesmo que isso signifique a destruição deles. Uma opção que certamente teria deixado Bukowski orgulhoso.
