20/07/2026
Drama

A Pequena Jerusalém

Laura é a filha caçula de uma família judia ortodoxa, que mora em Sarcelles, subúrbio de Paris. Independente, ela quer estudar Filosofia. Mas é pressionada pela família a casar-se com alguém da mesma fé, como sua irmã mais velha, Mathilde. Surge um conflito maior quando Laura se apaixona por um muçulmano, Djamel.

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O primeiro filme da diretora Karin Albou tem todas as qualidades e defeitos comuns aos estreantes. Das qualidades, a energia e a vontade de acertar. Dos defeitos, algumas hesitações de ritmo, decorrentes de uma vontade de abarcar muitas questões, que se colocam para quem pretende abordar a religião – judaica, no caso – e a condição feminina, passando pela inserção dos imigrantes na França. Uma proposta ambiciosa, mas da qual a diretora sai-se até muito bem.

Sua protagonista é a jovem Laura (Fanny Valette, ótima revelação), a filha mais nova de uma família judia ortodoxa, cujos pais emigraram da Tunísia e se radicaram em Sarcelles – um subúrbio de Paris que tem o apelido, justamente, de “pequena Jerusalém”, por sua alta concentração de judeus.

Aos 18 anos, a estudante de filosofia Laura é um poço de contradições. De um lado, está a pressão da família religiosa e conservadora de que ela encontre um marido dentro de sua fé. Laura, porém, é avessa à rigidez dos rituais religiosos que tanto submetem sua irmã mais velha, Mathilde (Elsa Zylberstein). Casada, mãe de quatro filhos, Mathilde encontra alívio em seguir os preceitos da Torá. Até o momento em que sua visão estreita deles em relação à própria sexualidade coloca em risco seu casamento com seu marido, Ariel (Bruno Todeschini). Por mais religioso que ele seja, ele está insatisfeito.

Entre as duas filhas, coloca-se a deliciosa figura da mãe (Sonia Tahar, em seu primeiro trabalho como atriz). Vinda de uma tradição africana, ela é capaz de um curioso sincretismo, trazendo elementos de outra cultura e outro tempo. Assim, ao mesmo tempo que acha que é seu dever benzer a filha mais nova e esconder amuletos sob sua cama, para espantar um suposto mau olhado, sua mentalidade é mais aberta do que sua filha mais velha.

Uma outra personagem feminina que demonstra uma abertura inusitada é a mulher do “mikva”, um local de purificação para as judias praticantes, e que é interpretada pela celebrada veterana do cinema francês Aurore Clément (vista recentemente em A Dama de Honra, de Claude Chabrol).

A diretora mostra sua ambição ao escapar de um mero registro das diversas visões femininas para dar voz também a Ariel, o marido de Mathilde, o que permite ao filme escapar de uma possível armadilha maniqueísta, vilanizando os personagens masculinos. Pelo contrário. A diretora foi capaz de incluir no roteiro momentos em que eles são capazes de se explicar e também declarar seus motivos.

Outro homem importante para a história é Djamel (Hedi Tillette de Clermont-Tonerre), um argelino dissidente que se refugiou na França e se apaixona agora por Laura – que tem mais um problema aqui, já que ele é muçulmano. A entrada de Djamel na história cria um choque para as certezas de Laura, obcecada em seu apego racionalista pela filosofia e decidida a não deixar-se levar nem pela paixão nem pelo sentimento. Uma decisão contra os hormônios e contra a natureza que não tarda a ter outro encaminhamento.

É muito oportuna, também, a discussão sobre o choque de culturas, a judaica e a muçulmana, já que a família de Djamel igualmente não vê com bons olhos a origem da moça. Num outro momento, ataques anti-semitas que destroem a sinagoga local colocam em pauta também a intolerância de uma França pós-Le Pen, sem que com isso o filme se desvie para um discurso ideológico nem didático.

Entre a religião, a política e a condição feminina, o filme fica com todas. E coloca com profundidade inúmeras perguntas, para as quais não há respostas prontas, somente escolhas. Assim, o desenvolvimento da história torna-se mais verdadeiro, como a vida mesma. Ajuda muito, para este belo resultado final, o delicado trabalho de câmera e a direção de atores, bastante natural.

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