18/07/2026
Drama Comédia

Transamérica

Bree (Felicity Huffman) é uma transexual que está a poucos dias de fazer sua esperada cirurgia para mudança de sexo, quando descobre que tem um filho adolescente. É obrigada a ir para Nova York e tirá-lo da cadeia, depois que a mãe do jovem morreu. Os dois fazem uma viagem de carro rumo a Los Angeles, onde ela planeja contar a difícil verdade para o rapaz.

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Sempre com roupas elegantes, em tons de rosa-claro, Bree é uma mulher, que tem modos delicados e gestos pausados. Seu andar é tranqüilo e seu equilíbrio num salto alto é majestoso. Sua maquiagem está sempre impecável, nunca excessiva. Mesmo quando está trabalhando com telemarketing na sala de sua casa, está bem arrumada, penteada e maquiada. Ela não abre mão de sua feminilidade. Sua fala é suave e sua gramática sempre correta. Nunca usa gírias ou muletas verbais. Bree é, enfim, praticamente uma lady – não fosse o fato de ser um homem que está a poucos dias de uma operação para mudança de sexo.

A personagem Bree Osbourne (née Stanley) é interpretada com perfeição pela atriz Felicity Huffman, até então mais conhecida por sua participação na série de TV Desperate Housewives. O seu trabalho aqui lhe valeu um Globo de Ouro na categoria atriz dramática, um Independent Spirit Award, entre outros prêmios e uma indicação ao Oscar (o filme também foi indicado na categoria canção original). Todo esse reconhecimento é mais do que merecido, uma vez que a atriz consegue humanizar e nos convencer na pele de um personagem que poderia cair muito fácil no caricato. O que é notório não é apenas a transformação física da atriz (próteses, maquiagens), mas como ela vai fundo no lado emocional de Bree/Stanley.

Para tudo isso, ela contou com uma direção do estreante em longa, Duncan Tucker, que também assina o roteiro. Transamérica começa como um estudo de personagem, ao conhecermos Bree poucos dias antes da operação, quando ainda se prepara para o grande acontecimento de sua vida. Porém, recebe uma ligação de Nova York, dizendo que o filho de Stanley está preso e que o pai é a única pessoa que o rapaz tem no mundo para pagar a fiança. Ela nem sabia que tinha um filho e tenta ignorar esse fato. Mas sua terapeuta diz que só assinará a autorização para Bree ser operada, se ela conhecer o filho e lhe contar a verdade.

Com seus modos delicados e educação refinada, fica fácil convencer o rapaz, Toby (Kevin Zegers), de que ela é uma evangélica que tenta redimir jovens desviados dos bons costumes. Ele ganha a vida como michê e gasta todo dinheiro com drogas. A partir desse encontro, Transamérica se torna um road movie, com pai e filho (sem saber da verdade) num carro velho viajando rumo a Los Angeles, onde o rapaz espera conseguir emprego como ator.

Embora Tucker possa seguir, em alguns momentos, a cartilha do gênero, Transamérica nunca se torna enfadonho ou previsível. Diversos personagens cruzam o caminho da dupla. O mais marcante é o nativo americano Calvin (Graham Greene), que começa a ter uma grande afeição por Bree. A galeria de tipos sugere que nem sempre aquilo que a sociedade não considera ‘aceitável’ assim o é. A personagem principal do filme é muito mais bem resolvida do que muitos considerados ‘normais’.

Muita coisa começa a fazer sentido quando Bree é obrigada a fazer uma parada na casa de sua família, no Arizona. Quem comanda as atenções é a figura materna Elizabeth (feita por uma irreparável Fionnula Flanagan). Com uma maquiagem carregada, um figurino de perua e atitudes extravagantes, ela parece ter sido o modelo positivo e negativo para Stanley, que tentou captar o que ela tem de melhor e evitar o que tem de pior.

Quando conhecemos a mãe, Duncan e Bree já tiveram tempo suficiente para colocar a platéia do lado da personagem. Mas a maior qualidade de Transamérica é nunca se transformar num filme panfletário ou didático. Colocando a personagem central em patamar de igualdade de todos os outros – sem a vitimizar, ou psicologizar –, o longa consegue ser muito mais eficiente no seu objetivo de exaltar a importância da diversas identidades sexuais no mundo contemporâneo.

O ano de 2005 entrou para a história como aquele em que finalmente as temáticas de identidade sexual chegam ao grande público com filmes que arrebatam prêmios e fazem sucesso. Transamérica fica ao lado de longas como O Segredo de Brokeback Mountain e Capote, abordando o assunto com seriedade e mostrando-se relevantes. Uma verdadeira vitória rumo a um mundo mais tolerante.

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