26/07/2026
Drama

Sob o Efeito da Água

Tracy Heart é uma ex-viciada em heroína. Recuperada há quatro anos, mora com a mãe e trabalha numa locadora de vídeo e DVD. Tenta obter um empréstimo bancário para aumentar a loja, mas não consegue por ter praticado fraude no passado. A figura de um ex-padrasto, de um ex-namorado e do irmão metido num lance de tráfico colocam dilemas no seu caminho.

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Depois de oito anos circulando o mundo como consagrada estrela internacional e dona de um Oscar (como atriz coadjuvante em O Aviador, em 2004), a australiana Cate Blanchett voltou para casa e retomou o sotaque. Despojada dos trajes de época, ela assume com a habitual competência e muita sensibilidade o papel de Tracy Heart. Uma jovem mulher de 30 e poucos anos, Tracy é a gerente de uma pequena videolocadora em Little Saigon, subúrbio de Sydney caracterizado por uma forte presença de imigrantes vietnamitas – como o sócio de Tracy – e por ser conhecida como a capital da heroína na Austrália.

Tracy não é estranha ao mundo das drogas, bem ao contrário. Ela mesma passou seu período no inferno, por conta do vício. Há quatro anos, está recuperada e tentando levar uma vida normal. Mas a normalidade é também um fardo, porque implica rotina, solidão e um vazio desesperador.

Neste momento, o passado está fazendo um retorno. Tracy tenta obter um empréstimo para ampliar a videolocadora mas não consegue porque sua ficha está suja por fraudes dos tempos de drogada. Um antigo namorado, Jonny (Dustin Nguyen) está de volta de uma temporada de quatro anos no Canadá e arma um esquema de tráfico com o irmão de Tracy (Martin Henderson). E há a figura paterna do ex-padrasto, Lionel Dawson (Hugo Weaving), um ex-jogador de futebol que arruinou sua carreira pelo vício da heroína, ao qual arrastou sua enteada. Motivo pelo qual sua ex-mulher, mãe de Tracy, Janelle (a excelente Noni Hazlehurst) não quer nem ouvir o nome dele.

A grande qualidade do roteiro de Jacqueline Perske e do diretor Rowan Woods, em seu segundo filme, é montar um universo coerente, de uma humanidade a toda prova, que lhe permite ultrapassar muitos dos habituais clichês do “filme de drogado” a que Hollywood acostumou o público. Não há discurso moralista, nem a necessidade disto. O que as pessoas são capazes de fazer por causa das drogas e do absurdo lucro de sua venda é explicitado com o realismo adequado. E isto basta.

É pena que uma parte tão grande do público procure o cinema apenas por escapismo, o que condena filmes como este a ter poucos espectadores, devido à sua temática. O tema é indiscutivelmente pesado. Há um drama de família, com personagens que os ótimos atores transformam em pessoas de verdade. E isso não é todo dia que se vê um filme atingir.

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