03/07/2026
Drama

Pai e Filho

Um ex-militar que foi pai e ficou viúvo muito jovem deixou sua carreira para dedicar-se totalmente ao filho. Agora, Alexei tem 18 anos e já estuda na Academia Militar. É um momento em que os dois homens, que construíram um círculo fechado de afeto e mútua proteção, enfrentam o dilema de uma vida futura em separado.

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Retomando, seis anos depois de Mãe e Filho (2002, inédito no circuito comercial brasileiro) sua trilogia sobre a família, o diretor russo Aleksandr Sokurov encena uma delicada e intensa parábola sobre uma especial relação entre um pai (Andrei Schechtinin) e seu filho único, Alexei (Alexei Nejmyshev). Um pai que teve este filho muito jovem, o que faz com que ele e Alexei, de 18 anos, pareçam irmãos ou amantes. A primeira cena, em que o pai conforta o filho de seus pesadelos noturnos, sugere uma proximidade de corpo e alma que faz com que os dois pareçam quase indivisíveis, uma entidade única.

Este mundo íntimo e protegido pelo afeto, em que falta a figura materna (ela morreu quando Alexei era pequeno) é justamente a força e a falha trágica na vida dos dois homens. O filme os acompanha justamente no momento em que uma ruptura entre os dois, rumo a uma nova vida independente, se coloca com toda a sua angústia e atração.

O filho já se encaminha na própria carreira na academia militar e vive quase simultaneamente o primeiro amor e a primeira decepção amorosa. A cena em que se coloca a separação dos amantes, que se falam pela fresta de uma janela entreaberta, usando mais os olhares do que as palavras, é um momento de cinema puro.

O pai, que abriu mão da própria vida e da carreira militar para cuidar do filho, pode agora pensar num outro emprego, uma outra cidade, outro casamento. Mas ele também experimenta emoções divididas.

O ambiente em tom sépia, às vezes dourado, é permanentemente envolto numa estranha névoa, que parece amaciar e fundir os contornos dos objetos. Uma névoa amorosa que pode obstruir uma visão clara da realidade. Ver a vida com distanciamento, aliás, só é possível a partir do telhado do prédio em que moram, onde pai, filho e algum vizinho freqüentemente conversam e até jogam futebol – outra cena que sustenta essa atmosfera fascinantemente irreal do filme.

Trilhando mais uma vez esse caminho fluido entre as emoções e a razão, ao mesmo tempo que sintoniza uma peculiar religiosidade (que tem menos a ver com a religião instituída e mais comum sentido do sagrado da vida mesma), Sokurov arma novamente uma obra em que é possível se perder, como um labirinto. Mas há somente ganhos de sensibilidade para o espectador que se dispuser a acompanhá-lo.

Algum dia, Sokurov promete fazer o capítulo final desta trilogia, “Dois Irmãos e Uma Irmã”, completando assim uma das chaves de uma obra particular, mais conhecida por suas reflexões sobre o poder – Moloch (1999), Taurus (2000) e Arca Russa (2001), em que se sobressai igualmente uma discussão sobre arte, memória e história. Num tempo em que predomina o instantâneo da celebridade, Sokurov oferece um saudável contraponto de seriedade e sentido.

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