Este mundo íntimo e protegido pelo afeto, em que falta a figura materna (ela morreu quando Alexei era pequeno) é justamente a força e a falha trágica na vida dos dois homens. O filme os acompanha justamente no momento em que uma ruptura entre os dois, rumo a uma nova vida independente, se coloca com toda a sua angústia e atração.
O filho já se encaminha na própria carreira na academia militar e vive quase simultaneamente o primeiro amor e a primeira decepção amorosa. A cena em que se coloca a separação dos amantes, que se falam pela fresta de uma janela entreaberta, usando mais os olhares do que as palavras, é um momento de cinema puro.
O pai, que abriu mão da própria vida e da carreira militar para cuidar do filho, pode agora pensar num outro emprego, uma outra cidade, outro casamento. Mas ele também experimenta emoções divididas.
O ambiente em tom sépia, às vezes dourado, é permanentemente envolto numa estranha névoa, que parece amaciar e fundir os contornos dos objetos. Uma névoa amorosa que pode obstruir uma visão clara da realidade. Ver a vida com distanciamento, aliás, só é possível a partir do telhado do prédio em que moram, onde pai, filho e algum vizinho freqüentemente conversam e até jogam futebol – outra cena que sustenta essa atmosfera fascinantemente irreal do filme.
Trilhando mais uma vez esse caminho fluido entre as emoções e a razão, ao mesmo tempo que sintoniza uma peculiar religiosidade (que tem menos a ver com a religião instituída e mais comum sentido do sagrado da vida mesma), Sokurov arma novamente uma obra em que é possível se perder, como um labirinto. Mas há somente ganhos de sensibilidade para o espectador que se dispuser a acompanhá-lo.
Algum dia, Sokurov promete fazer o capítulo final desta trilogia, “Dois Irmãos e Uma Irmã”, completando assim uma das chaves de uma obra particular, mais conhecida por suas reflexões sobre o poder – Moloch (1999), Taurus (2000) e Arca Russa (2001), em que se sobressai igualmente uma discussão sobre arte, memória e história. Num tempo em que predomina o instantâneo da celebridade, Sokurov oferece um saudável contraponto de seriedade e sentido.
