Se alguma coisa não encaixa bem, não foi culpa de Aaron. Ele está ótimo na pele de Nick Naylor, o implacável porta-voz da Big Tobacco, a união dos fabricantes de cigarros americanos. Numa América obcecada pelo antibatabagismo, em pânico pelas estatísticas que apontam 1.200 mortes diárias por causa do fumo, é de se imaginar que Nick tem trabalho de sobra. E o desempenha muito bem. Bonitão e cheio de lábia, ele enfrenta debates, simpósios e programas de TV com uma cara de pau de valer medalha olímpica, se nas Olimpíadas existisse a modalidade do contorcionismo verbal. Em geral, ele não perde nenhuma discussão. Quando tudo está perdido para o seu lado, Nick saca de outra arma – a generosidade hipócrita. E lá vai a Big Tobacco, liderada por um chefão caquético e mafioso (Robert Duvall), liberar mais alguns milhões de dólares para uma campanha de prevenção ao fumo entre os jovens que, todos sabem, vai ser boa para o marketing, sem nenhum resultado concreto. E nem era essa a intenção desde o começo.
Uma das melhores sacadas está nos hilariantes almoços em que os lobistas dos setores mais satanizados nos EUA, Nick, Polly (Maria Bello), representante dos fabricantes de bebidas alcoólicas, e Bobby Jay (David Koechner), dos fabricantes de armas, comparam seus problemas e compartilham estratégias.
Não escapa ao sedutor encanto da lábia de Nick seu próprio filho, Joey (Cameron Bright, de Reencarnação). O garoto logo se encanta pela máxima do papai – “se você debater direito, nunca está errado”. Uma filosofia capaz de absolver o assalto à mão armada e Adolf Hitler. Ou seja, tudo.
Mesmo sendo uma comédia sem altas pretensões, Obrigado por Fumar aproveita bem o material do bestseller que lhe deu origem, do escritor Christopher Buckley, e mostra-se um bom retrato de uma era cínica – em que valores e causas políticas foram devorados pelo império avassalador do marketing e das relações públicas. No fundo, o que importa é a imagem. O que dá o que pensar, por mais que o filme faça rir.
