04/06/2026
Drama

Vôo United 93

Em 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais norte-americanos foram seqüestrados por terroristas. Três deles atingiram seus alvos. No último, o vôo 93 da United Airlines, os passageiros resolveram reagir e tentar salvar suas vidas. O filme é uma recriação do que pode ter acontecido dentro da aeronave, e contou com a consultoria de pessoas que estiveram próximas da tragédia, como controladores de vôo e parentes das vítimas.

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O final da tarde e a noite de 10 de setembro de 2001, em Nova York, foram bem tranqüilas. A ensolarada manhã do dia 11 também prometia um belo dia. No aeroporto de Newark, os vôos estavam com um certo atraso, mas nada fora da rotina, como informa o comandante do Vôo 93 da United Airlines, com destino a San Francisco. Poucos minutos depois de o avião estar no céu, o mundo viu algo sem precedentes.

Quatro aviões norte-americanos foram seqüestrados para atingir diversos alvos. Três deles conseguiram – dois no World Trade Center e um no Pentágono. Em Vôo United 93, o cineasta inglês Paul Greengrass (A Supremacia Bourne) recria os eventos da aeronave que não atingiu o alvo dos terroristas. Seguindo o mesmo estilo documental que empregou em seu outro filme baseado em fatos reais, Domingo Sangrento, sobre os trágicos eventos que ocorreram na Irlanda em 1972.

Se havia um diretor que pudesse fazer um filme honesto sobre o 11 de setembro, ele é Greengrass. O cineasta não está nem um pouco interessado em retratar heróis anônimos que, diante de uma situação extraordinária, são obrigado a agir de forma corajosa. Aqui, são pessoas comuns que se viram em meio a uma tragédia iminente e tentaram salvar as suas vidas, ou, ao menos, a vida de outras pessoas. Fica muito mais fácil acreditar nessa proposta devido ao fato de todos os atores serem desconhecidos. Aliás, alguns dos controladores de vôo que trabalhavam no dia participam de várias cenas do filme. Assim, o diretor mostra estar menos preocupado em criar personagens fortes do que pessoas unidas por conta das circunstâncias.

Embora nunca vá se saber ao certo o que aconteceu dentro do vôo 93, e o roteiro deixa bem claro que o filme é inspirado por fatos reais. No enredo, mostra-se mais interesse no retrato das pessoas tomando uma posição para se defender quando o Estado já não se mostra mais capaz. A mesma sensação de vulnerabilidade coletiva que tomou o mundo todo depois de 11 de setembro foi experimentada primeiro pelos passageiros desse avião.

O vôo 93 da United começa com a rotina de qualquer vôo. A tripulação embarca falando de banalidades, do cansaço, do dia que está bonito, dos filhos. Depois são os passageiros que entram para uma viagem de pouco mais de cinco horas. Essas cenas iniciais tão calcadas na inocência dessas pessoas, que desconhecem seu destino trágico, chegam a ser mais duras de se ver do que o seqüestro em si. Os procedimentos de segurança demonstrados pelas comissárias chegam a ser ingênuos perante tudo que terão de enfrentar. São pessoas de diversas idades que sequer sabem do que aconteceu em Nova York. A cabine só é informada dos dois aviões que colidiram contra o WTC quando já está no ar.

Greengrass acompanha todo o desenrolar dos eventos daquele dia. É da torre de controle que ficamos sabendo que há um possível seqüestro. Algo que não acontecia há vinte anos e, por isso, as autoridades mostram-se despreparadas para agir rapidamente. Como o tempo entre a primeira colisão contra o WTC e o destino final do vôo 93 é tão curto (cerca de 90 minutos), isso permite que a ação do filme se desdobre praticamente em tempo real. O último ato se passa inteiramente dentro da aeronave. À medida que o filme se aproxima de seu final, sua fotografia – assinada por Barry Ackroyd, constante colaborador de Ken Loach –vai ficando mais luminosa.

Vôo United 93 prefere deixar seus comentários políticos para as entrelinhas. O governo norte-americano, assim como os profissionais mostrados no filme, não parecem preparados para algo daquela dimensão. A expressão de desolação no rostos quando a segunda aeronave atinge o WTC traduz como os EUA foram pegos de surpresa. O governo se mostra inacessível e ninguém consegue entrar em contato com o presidente para tomar alguma medida drástica - como autorizar aviões militares a derrubarem as aeronaves seqüestradas.

Já se passaram cinco anos dos ataques e as artes e a indústria cultural se aproximam com um certo receio ainda destes eventos. Alguns livros (como Extremamente Alto, Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, e filmes (como o ainda inédito no Brasil As Torres Gêmeas, de Oliver Stone, e A Última Noite, de Spike Lee) tentam lidar com os resultados da tragédia, ou como os ataques atingiram a vida de alguns personagens específicos. Mas até agora, tudo foi visto do ponto de vista daqueles que estavam em terra firme. Greengrass leva sua câmera para o epicentro da história, e o que se vê é corajoso e devastador, resultando no filme mais importante do ano. Depois de Vôo United 93 todo o resto parece banal.

Greengrass não busca catarse ou explicações políticas ou culturais para aquilo que aconteceu. Aqui, ele mostra que o mundo nunca mais será o mesmo e que esta mudança aconteceu em poucos minutos. Longe de explorar a tragédia de milhares de pessoas, Vôo United 93 ilumina alguns cantos da alma humana, aqueles governados pelos instintos de sobrevivência. Aqueles que levam as pessoas a lutarem por sua vida e por seus ideais – mesmo quando a situação parece perdida. E isso fala à humanidade toda.

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