Exibido em competição em Cannes, no ano passado, Pintar ou Fazer Amor gira em torno da troca de casais. Madeleine (Sabine Azéma) é casada com o meteorologista aposentado William (Daniel Auteuil). Enquanto pinta uma paisagem bucólica, ela encontra Adam (Sergi López), que é cego e casado com Eva (Amira Casar). Depois de uma série de incidentes, os dois casais amigos acabam dividindo o mesmo teto, e, acontecendo uma troca de esposas.
Fosse no cinema norte-americano, haveria um grande dilema moral em, pelo menos, um dos dois casais, depois do fato consumado. Mas os franceses parecem lidar mais cinicamente com a situação. Há um certo arrependimento, porém, mais emocional do que moral. E é aí que o filme dos irmãos Arnaud e Jean-Marie Larrieu parece buscar seu ponto de apoio. Há um certo embaraço de um dos casais, mas não há sequer a menção da separação, ou um questionamento da fidelidade.
O que os diretores e roteiristas fizeram foi adaptar para o século XXI um tema que foi muito explorado na literatura norte-americana dos anos 70. No pós-revolução sexual, uma série de autores, como Updike, Cheever e Dubus, se aventuraram – e muito bem – por esse terreno. No entanto, uma tentativa recente do cinema norte-americano de explorar o tema em Tentação não soube aproveitar os textos de Dubus em que se baseou. O grande erro foi situar no presente uma ação que, na sociedade americana, só era possível naquela época. Aí reside o grande triunfo de Pintar ou Fazer Amor. É mais fácil imaginar dois casais franceses se aventurando por essa prática do que duas duplas de ianques.
Indo na contramão da maioria dos filmes franceses, em que a ação se passa nas grandes metrópoles, um idílio no meio do filme leva os personagens para o campo, os Larrieu, situando a trama numa região bucólica, cheia de montanhas e árvores. Apenas eventualmente as pessoas vão até a cidade. Essa concepção, aliada a muitos diálogos intensos, remete ao cinema de Eric Rohmer, que tem como centro os seus personagens, deixando a ação em segundo plano.
Ninguém chama dois de seus personagens centrais de Adam, ou seja, Adão, e Eva, por acaso. Há no subtexto do filme uma vontade de ir além do que está na superfície. Também não é por acaso que esse casal é a parte mais ativa do filme. À outra dupla cabe descobrir novidades que até então eram inimagináveis. Mas tudo tem o seu preço. Relacionamentos humanos não são tão descartáveis como possa parecer. A ousadia sexual, então, é mais complicada ainda. “A promiscuidade não é bolinho”, diz uma amiga do casal. Sábias palavras.
