Ao inventar uma compositora e copista de música que funcionava como verdadeiro anjo da guarda do compositor alemão Ludwig Van Beethoven (1770-1827), este novo filme da polonesa Agnieszka Holland toma liberdades com o mito. Ao fazê-lo, injeta uma vitalidade raramente encontrável num filme de época, sem trair o traço fundamental do protagonista, genial e visionário.
Anna Holtz (Diane Kruger, a Helena de Tróia) é uma jovem estudante de música que ambiciona tornar-se compositora – um verdadeiro desafio na Viena do século XIX, para onde ela se muda. Vivendo num convento comandado por sua tia, a madre-superiora Canisius (Phyllida Law), Anna é enviada por seu professor ao estúdio de Schlemmer (Ralph Riach), assistente e copista de partituras de Beethoven (Ed Harris). Schlemmer está doente, por isso, precisa de um substituto para copiar as partituras do mestre, perfeccionista e irascível.
Depois de uma breve hesitação, por conta de Anna ser mulher, ela é mandada à casa de Beethoven e, para surpresa geral, consegue sua aceitação. Estabelece-se entre os dois uma especial relação de mestre e discípula, a princípio com nítida vantagem para Beethoven, gênio de humor destemperado que aprecia, não obstante, a sinceridade de Anna, bem como sua companhia.
Naqueles dias, apesar do êxito profissional, Beethoven era um grande solitário, odiado até pela maioria dos vizinhos. Não era para menos. Entre seus maus hábitos, costumava banhar-se em geral na mesma hora que os moradores do andar de baixo tomavam suas refeições e recebiam por cima a água utilizada, que escorria pelas frestas do assoalho. Já com a surdez avançada, ele não ouvia seus furiosos protestos. Se ouvia, não se dava por achado.
O Beethoven de Ed Harris, que repete a paixão entregue em Pollock (2000, que também dirigiu) é tão egocêntrico quanto inovador, o que está de acordo tanto com a lenda quanto com a maioria dos filmes que o retratam, como o mediano Minha Amada Imortal (1994), de Bernard Rose, com Gary Oldman no papel do compositor. real6
Sob a direção segura de Holland, explora-se habilmente a dualidade de sentimentos entre Beethoven e Anna, em que não falta até uma inequívoca atração sexual. Os melhores momentos estão nas cenas em que Anna corre em socorro de seu mestre, como quando o auxilia, escondida entre os músicos, a reger a orquestra na primeira exibição de sua Nona Sinfonia, já que ele não consegue mais ouvir os instrumentos para segui-los.
Ao declínio físico do protagonista, corresponde uma última onda de criatividade, traduzida em quartetos de cordas como a Grande Fuga op. 133 que foram muito mal-recebidos na época. Mesmo tomando tantas liberdades com sua biografia, o filme de Holland com certeza faz justiça à grandeza do compositor. Imprima-se a lenda.
