Mesmo sendo seu primeiro trabalho feito em digital, não se percebe diferença alguma, pois sua paleta de cores continua privilegiando os tons fortes e pastéis, e os traços são estilizados, mas dando atenção especial aos detalhes, em especial do cenário que, aqui, é inspirado em locações no Marrocos, Tunísia e Argélia. A temática, tal qual seu filme mais conhecido Kirikou e a Feiticeira (98), é exótica e tem ares de uma lenda antiga.
A maior qualidade da obra de Ocelot é lidar com temas e ambientes exóticos sem cair num olhar de estrangeiro encantado com o próprio exotismo. Assim, vemos o mundo Árabe de forma tão natural quanto o mundo ocidental – não há uma contemplação de uma pessoa que está encantada com aquele cenário tão longe do seu.
O enredo segue em tom de fábula, contando a história de dois amigos de infância (um árabe e um francês) que são obrigados a se separar, e quando reencontram já adultos o preconceito impede que retomem sua amizade. Os dois acabam disputando o amor de uma princesa encantada, que fazia parte das lendas contadas pela mãe de Asmar, o garoto árabe.
Os públicos mais acostumados com o esquematismo das animações norte-americanas precisam de um pouco de paciência nos primeiros minutos, até a narrativa decolar. No entanto, o visual arrojado com traços estilizados e marcantes é capaz de prender a atenção de forma hipnótica.
Essa temática perdida no tempo, a busca pelo amor de uma princesa, a ambientação onírica transformam As Aventuras de Azur e Asmar numa fábula atemporal. No entanto, Ocelot inclui temas contemporâneos e relevantes, abordando questões como a convivência racial e religiosa, a emancipação feminina e as vantagens da cooperação. Levando em conta que o público-alvo do filme são crianças, essa proposta dá mais força à animação, afinal ela está falando à sensibilidade das gerações futuras, que podem fazer deste um mundo melhor.
