Dirigida pelo também alemão Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra, Paraíso) o filme parece ter dois propósitos: agradar à legião de fãs do livro e transformar em imagens as descrições pouco palpáveis do romance. O Perfume consegue se sair bem melhor no segundo quesito, quando usa fotografia, enquadramentos e montagens para traduzir um efeito sinestésico (cruzando imagens e tentando reproduzir odores) na platéia. As longas descrições de Süskind podem se tornar duas meras tomadas no cinema. Mas isso não impede que a produção seja excessivamente fiel à obra original, resultando na longa duração e oscilação do ritmo do filme.
Tywker é corajoso por não abrir mão dos detalhes mais sórdidos de Süskind, o que pode causar uma certa ojeriza no público. As primeiras cenas mostram uma Paris do século XVIII, cujos odores estão cada vez mais fortes e insuportáveis. Para isso, ele usa cortes rápidos que servem apenas para transmitir sensações ao espectador. Uma feira suja, peixes podres, dentes estragados, tudo isso serve para criar o clima sensorial da cidade e explicar porque os perfumes eram tão importantes e venerados.
É nesse cenário que nasce Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), um jovem incapaz de exalar qualquer odor, e, ao menos tempo, com o olfato mais apurado do mundo. Essa benção (ou maldição) do personagem é o que guia o seu desejo e seus impulsos. O Perfume é, acima de tudo, uma história de suspense. Tal qual O Silêncio dos Inocentes, Tywker está muitas vezes interessados nos procedimentos criminosos de seu personagem, em sua metodologia – mais do que em sua psique.
Dessa forma, vemos Grenouille desenvolver um método de capturar o odor de pessoas e transformá-lo em perfume. Ele tem um objetivo e, para alcançá-lo, precisa apurar sua técnica. Fica claro que o impulso assassino está intimamente ligado ao desejo sexual do personagem. Mas isso não é muito explorado.
Enquanto Süskind, em sua prosa, tem um estilo sarcástico, direto, quase jornalístico, Tywker parece levar tudo para o lado literal. Já comentários de um narrador (voz de John Hurt, que usa o mesmo tom de seus outros trabalhos em Dogville e Manderlay) aumentam o tom de reverência do filme, o que faz parecer que os realizadores não se importaram em explorar muito a mídia com a qual trabalham e não apenas transpor em imagens a narrativa do romance.
Tykwer mostra-se, assim, ousado e tímido ao mesmo tempo. A sua ousadia deriva mais da obra original do que de sua própria opção. O clímax do filme, tal qual no livro, remete ao “Jardim das Delícias”, do pintor holandês Hieronymus Bosch; já o final, a Satyricon, de Fellini. Ao mesmo tempo, o respeito que se mantém ao original cria uma amarra intransponível. Querendo agradar aos leitores apaixonados, Perfume é excessivo. É como um bom perfume, a dose certa pode ser inesquecível; o excesso pode causar intoxicação.
