No cinema, apesar de sua versatilidade, Forest Whitaker vem tendo uma carreira errática, alternando altos, como Traídos pelo Desejo, desaparecendo a seguir por diversos papéis em televisão – que, se são bons, ainda assim ficam a dever ao seu enorme potencial. Aqui ele tem um banquete ao seu dispor. Seu Idi Amin é um personagem quase shakesperiano, uma mistura em partes iguais de bonomia e violência, histriônico diante das câmeras dos jornalistas ao mesmo tempo que capaz de comandar o massacre de cerca de 300.000 compatriotas durante um governo de apenas oito anos (1971-79).
Para dar à luz a complexidade de tal personagem verídico, nada melhor do que um recurso ficcional eficaz, tomado emprestado do livro de Jeremy Brock e Giles Foden que deu origem ao roteiro, do próprio Brock e de Peter Morgan. Este recurso nada mais é do que a figura de um jovem médico escocês, Nicholas Garrigan (interpretado com garra pelo ator James McAvoy). Recém-formado, idealista e em busca de aventuras, ele desembarca na Uganda do início dos anos 70 sem mapa nem a menor noção do território perigoso em que pisa. Acaba seduzido pela personalidade carismática de Amin, tornando-se médico pessoal de sua família.
Fazendo parte deste círculo íntimo do poder, Garrigan personifica a conquista de Amin das massas ugandenses quando se inicia seu governo. Inicialmente mesmerizados por sua origem humilde e discurso desenvolvimentista, a população local e o próprio Garrigan são progressivamente confrontados com o horror que o presidente-ditador desencadeia à sua passagem. Como um grande animal de apetite incontrolável, Amin vai devorando tudo e todos à sua volta. Garrigan, inclusive, cuja perda da inocência é dolorosamente acompanhada pela consciência de ter-se tornado cúmplice desse império do arbítrio e do assassinato em massa. O jovem médico pode muito bem ser visto como o símbolo da irresponsabilidade e cegueira de uma das faces do colonialismo branco, mesmo quando julga, como ele a princípio, estar fazendo algum bem.
Dirigido pelo premiado documentarista Kevin MacDonald – que estréia aqui na ficção -, o filme mantém um clima tenso, que comunica essa sensação de perigo iminente, de insustentabilidade que é a mais completa tradução de um país dominado por tal irracionalidade. Trata-se de mais uma oportuna revisão da tragédia africana, como a comunicada por filmes recentes, tipo Diamante de Sangue e O Jardineiro Fiel. Infelizmente, ainda sem solução à vista.
