30/07/2026
Drama

O Último Rei da Escócia

No início dos anos 70, o governo de Milton Obote em Uganda é deposto por um golpe militar de Idi Amin Dada (Forest Whitaker). Nessa época, desembarca no país um jovem médico escocês e recém-formado, Nicholas Garrigan (James McAvoy). Cainda na simpatia do ditador, o médico se tornará seu assessor. E presenciará de perto sua crescente violência.

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Um irresistível rastilho emana do ator Forest Whitaker, que acumula prêmio em cima de prêmio na esteira de sua admirável personificação do tirano ugandense Idi Amin Dada. Dono de um Globo de Ouro, do troféu do Sindicato dos Atores Americanos (SAG), do National Board of Review e círculos de críticos como os de Nova York, Whitaker trilhou uma jornada invencível rumo ao seu primeiro Oscar – que veio de sua primeira indicação, apesar dos 25 anos de carreira. Como aconteceu com outros atores, a Europa foi mais rápida em reconhecer seu talento. O Festival de Cannes concedeu-lhe o prêmio de melhor ator há quase 20 anos atrás, por sua interpretação empenhada do músico Charlie Parker em Bird (1988), obra-prima que comprovou definitivamente que Clint Eastwood era bem mais do que o intérprete do Homem sem Nome e do truculento detetive Dirty Harry.

No cinema, apesar de sua versatilidade, Forest Whitaker vem tendo uma carreira errática, alternando altos, como Traídos pelo Desejo, desaparecendo a seguir por diversos papéis em televisão – que, se são bons, ainda assim ficam a dever ao seu enorme potencial. Aqui ele tem um banquete ao seu dispor. Seu Idi Amin é um personagem quase shakesperiano, uma mistura em partes iguais de bonomia e violência, histriônico diante das câmeras dos jornalistas ao mesmo tempo que capaz de comandar o massacre de cerca de 300.000 compatriotas durante um governo de apenas oito anos (1971-79).

Para dar à luz a complexidade de tal personagem verídico, nada melhor do que um recurso ficcional eficaz, tomado emprestado do livro de Jeremy Brock e Giles Foden que deu origem ao roteiro, do próprio Brock e de Peter Morgan. Este recurso nada mais é do que a figura de um jovem médico escocês, Nicholas Garrigan (interpretado com garra pelo ator James McAvoy). Recém-formado, idealista e em busca de aventuras, ele desembarca na Uganda do início dos anos 70 sem mapa nem a menor noção do território perigoso em que pisa. Acaba seduzido pela personalidade carismática de Amin, tornando-se médico pessoal de sua família.

Fazendo parte deste círculo íntimo do poder, Garrigan personifica a conquista de Amin das massas ugandenses quando se inicia seu governo. Inicialmente mesmerizados por sua origem humilde e discurso desenvolvimentista, a população local e o próprio Garrigan são progressivamente confrontados com o horror que o presidente-ditador desencadeia à sua passagem. Como um grande animal de apetite incontrolável, Amin vai devorando tudo e todos à sua volta. Garrigan, inclusive, cuja perda da inocência é dolorosamente acompanhada pela consciência de ter-se tornado cúmplice desse império do arbítrio e do assassinato em massa. O jovem médico pode muito bem ser visto como o símbolo da irresponsabilidade e cegueira de uma das faces do colonialismo branco, mesmo quando julga, como ele a princípio, estar fazendo algum bem.

Dirigido pelo premiado documentarista Kevin MacDonald – que estréia aqui na ficção -, o filme mantém um clima tenso, que comunica essa sensação de perigo iminente, de insustentabilidade que é a mais completa tradução de um país dominado por tal irracionalidade. Trata-se de mais uma oportuna revisão da tragédia africana, como a comunicada por filmes recentes, tipo Diamante de Sangue e O Jardineiro Fiel. Infelizmente, ainda sem solução à vista.

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