Algumas não estão contentes com essa situação. “Sou uma pesquisadora estudando o comportamento de suburbanas chatas de classe média alta. Mas não sou eu própria uma suburbana chata de classe média alta”, pensa Sarah (Kate Winslet), personagem principal de Pecados Íntimos. Realmente, ela não é, e um caso com o Brad vai tirar a sua vida do marasmo, e a dele também. Ele, por sua vez, é um tipo imaturo. Formado em direito, ainda não passou no exame da Ordem e se prepara para prestá-lo pela terceira vez, sem muita perspectiva de aprovação. Passa as noites a observar adolescentes skatistas, e desejando poder participar da brincadeira. Quem sustenta a casa é sua mulher Kathy (Jennifer Connely), uma documentarista que passa mais tempo trabalhando do que com o filho.
O diretor Todd Field (Entre Quatro Paredes) adapta o romance Criancinhas, de Tom Perrota (mesmo autor de Eleição, que deu origem a um ótimo filme dirigido por Alexander Payne), junto com o autor e transpõe para a tela a atmosfera agridoce do livro, habitado por personagens que mais parecem mortos-vivos. Alguns deles conseguem ressuscitar, ou ao menos, tentam. A relação entre os Sarah e Brad é algo digno de estudo. Ele, um sujeito que tem tudo para ser Mister Estados Unidos – a perfeição física. Já a moça se veste mal e não está nem aí para nada, a não ser cuidar da filha. O casamento, com um homem mais velho, também se estagnou. No entanto, esse caso extraconjugal a transforma.
Mais complicada é a vida de Ronnie (Jackie Earle Haley), um exibicionista que cumpriu pena por se mostrar a crianças. A volta dele ao bairro causa uma verdadeira neurose coletiva. Sua ida à piscina pública resulta numa das melhores cenas de Pecados Íntimos, quando pais desesperados retiram seus pequenos filhos de dentro da água, sem que as crianças entendam o que está acontecendo. É um reflexo da neurose que toma conta da sociedade americana contemporânea, em que qualquer um pode ser visto como pedófilo, ou mesmo um terrorista em potencial.
Field e o ator, no entanto, conseguem compor um retrato extremamente humano do personagem. Ronnie é um ser atormentado que não entende nem aceita a si mesmo. Sua única amiga é sua mãe idosa, que já o perdoou e tenta ajuda-lo a fazer isso consigo mesmo. Mas não é fácil.
Outro bom momento é uma discussão de um grupo de mulheres sobre o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, cujo tema central é a infidelidade da protagonista. Sarah, que acaba sendo uma ferrenha defensora da personagem, engaja-se numa discussão com outra mulher, uma das mães que freqüentam o parquinho, sobre a traição de Emma Bovary. Claro que, a certa altura, já nem falam mais do livro, mas de Sarah e Brad. Field passa de um ponto a outro com sutileza e sagacidade. Seu retrato da vida perdida no subúrbio evita cair na estilização um tanto quanto fria de Beleza Americana ou no excesso de bizarrices dos filmes de Todd Sollondz (Felicidade). Aqui, o que se encontra são seres humanos cheios de medos, dúvidas e em busca de realizações.
Nesse sentido, Pecados Íntimos transita entre a sátira e o drama. Field expõe algumas dores e alegrias da vida em sociedade, dos relacionamentos familiares e extraconjugais. No fundo, o que a história diz é que somos todos criancinhas (como diz o título original do filme) em busca de algo mais que nos complete, que nos abra as portas do mundo adulto – no qual imaginamos existir respostas para todas as dúvidas.
