Sombras representa um cinema que vai contra ao vigente na época – é, portanto, um marco no nascimento do cinema independente. Longe dos códigos que amarravam os filmes, o longa de Cassavetes prima por sua liberdade singular, com câmera na mão, a negação de uma narrativa clássica, e tendo como cenários ruas e pequenos apartamentos, além de contar com o trabalho de atores não-profissionais.
A idéia de Sombras partiu de um laboratório que Cassavetes deu para estudantes de artes dramáticas, que acabaram sendo os protagonistas de seu filme. Como sempre teve uma consciência social muito grande, o cineasta queria questionar em sua obra o papel do negro na sociedade norte-americana, na qual não é vista como um cidadão igual ao branco. Para isso, a narrativa do filme arma uma teia de relações entre três irmãos. Lelia (Lelia Goldoni) é mestiça, quase branca; Ben (Ben Carruthers), mas escuro; e, finalmente, Hugh (Hugh Hurd), que é completamente negro.
Essa diversidade na aparência dos irmãos reflete na forma como eles encaram o mundo e o preconceito que sofrem. Lelia se envolve com Tony, que desconhece as origens da moça. E, depois de passarem a noite juntos, quando isso vem à tona, o rapaz se sente desconfortável. O constrangimento é visível, quando ele tenta achar uma desculpa para ir embora depois de conhecer os irmãos da moça. Depois de alguns desentendimentos, Hugh consola a irmã dizendo que ela tem a ele e a Benny. Mas isso não conforta Lelia, que diz amar o rapaz.
Essa pequena cena, que pode ser o eixo de Sombras, revela muito sobre as relações raciais e familiares do filme. Benny é a figura paterna da família, é a ele que cabe a última palavra, a defesa de Lelia. A base familiar é um dos maiores interesses na obra de Cassavetes. Ela é a base da existência do indivíduo, do personagem. A ambigüidade desse núcleo pode representar tanto a maturidade do indivíduo quando um obstáculo a ser superado. Nesse sentido, o jazz é fundamental, não só como forma de expressão, mas também como forma de afirmação.
Em Sombras, têm-se um grupo de personagens que tentam se firmar fora de parâmetros pré-estabelecidos. São personagens que vivem à margem da sociedade, e, ao mesmo tempo, buscam uma inserção. Nesse sentido, o trio de irmãos poderia estar numa jornada existencial que consiste em anular sua própria identidade para ser aceitos pela sociedade. Mas eles se negam a isso, pois buscam um universo onde a dicotomia negro-branco não exista.
Já a câmera de Cassavetes busca o movimento constante dos corpos. Mesmo numa cena no Museu de Arte Moderna, de Nova York, até as estátuas são percorridas de forma dinâmica. O que se concretiza nos outros filmes do diretor é essa necessidade constante da mobilidade perpétua.
