Quarto filme do diretor John Cassavetes (1929-1989), que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original em 1968 e constitui uma verdadeira síntese de seu estilo. Filmando com diversas câmeras e criando uma atmosfera de aparente improvisação – que na verdade era obtida pela realização de muitos ensaios prévios do elenco -, Cassavetes conta uma história de busca e desencontro a partir da vida de alguns casais.
Um deles é formado por Richard (John Marley) e Maria Forst (Lynn Carlin), ele mais velho, ela jovem, ambos mergulhados numa intensa crise. Por conta do estranhamento entre eles, buscam outros relacionamentos. Ele, com a prostituta Jeannie (Gena Rowlands, mulher e musa constante de Cassavetes). Ela, numa noitada com amigas num bar, conhece um rapaz de programa, Chet (Seymour Cassel).
A partir desse casal central, o enredo incorpora diversos outros personagens e situações até compor um círculo de relacionamentos, de onde o diretor e roteirista extrai um ritmo que procura semelhança com a própria vida. Não há flashbacks para explicar o passado de ninguém, não há discursos morais. Cassavetes filma todos, homens e mulheres, num enfoque à flor da pele, numa eterna procura, em eterno movimento.
Por essas características, Faces, apesar de ter sido feito há quase 40 anos, respira uma vitalidade e energia notáveis. À parte os figurinos e penteados, nada parece datado aqui – nem mesmo a bela fotografia em preto-e-branco (de Al Ruban), que contribui para o tom da dramaticidade buscada.
O ritmo ágil deve muito à montagem, também de Al Ruban e Maurice McEndree, que demorou um ano e meio para ser completada. Toda a produção de Faces, aliás, foi bem demorada: seis meses de filmagem e dois anos e meio entre montagem e pós-produção. O controle de custos só foi possível porque a maior parte destas etapas eram realizadas na própria casa de Cassavetes e Gena, em Los Angeles, com a estreita participação de todos no elenco e na equipe técnica, que formava a família artística em torno deles. Caso do citado Ruban, que produziu vários filmes de Cassavetes, e dos atores Seymour Cassel, Ben Gazzara e Peter Falk.
Ator e diretor que se rebelou contra Hollywood – onde teve problemas como a montagem à sua revelia de seu filme Minha Esperança é Você (1963), por ordem do produtor Stanley Kramer –, Cassavetes também se tornou conhecido por algumas de suas interpretações – como o papel do indisciplinado Victor Franco em Os Doze Condenados (1967), de Robert Aldrich – em que teve indicação ao Oscar de ator coadjuvante - e o intermediário do diabo no terror O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski.
