Por esse vigor é que o filme, feito em 1974, não parece envelhecido. Pelo contrário. Fora os figurinos e alguns tons da fotografia, nada há de datado. A obra respira urgência e vida presente, uma das marcas de Cassavetes. Ele filma seus personagens como se os surpreendesse em seu cotidiano, no meio de uma frase, em plena ação.
Como na vida real,o acaso desmonta as expectativas. Mabel e o marido, Nick (Peter Falk), planejaram uma noite romântica, mandando os três filhos para a casa da avó (Lady Rowlands, mãe de Gena na vida real). Nick, que trabalha em obras, é obrigado a atender a uma emergência nos encanamentos de um outro bairro da cidade. O incidente deflagra uma crise emocional na instável Mabel. Ela acaba se embriagando num bar e trazendo um homem para casa. Mas é visível que ela não tem consciência total do que está fazendo nem das possíveis conseqüências. Ela nem mesmo lembra depois tudo o que diz ou faz.
Contando com uma atriz destemida e talentosa como Gena, a personagem alça vôo e ganha estatura humana. Descolando-a de qualquer contexto que poderia torná-la caricata, Gena expõe sua ternura, seu infantil desejo de aventura, seu total descompromisso com as convenções e a moralidade, que ela nem mesmo entende.
Assim, ela provoca sem querer uma cena de ciúme de Nick quando convida para dançar um dos operários que ele trouxe para almoçar em sua casa – onde o menu é sempre espaguete, a única coisa que Mabel sabe fazer (um detalhe inspirado na vida real das filmagens do diretor, muitas realizadas em sua própria casa e intercaladas por sessões de sanduíche ou macarrão).
Mabel é capaz de muito mais. Como esperar os filhos por horas na calçada de casa, aguardando o ônibus que os trará da escola – de pura saudade. Ou de inventar de repente uma festa à tarde sem nenhuma razão especial, que implica que todo mundo use fantasias e faça evoluções de balé. Esta última aventura acaba mal porque o pai de uma das crianças convidadas interpreta bem mal as idéias de Mabel.
O confronto de Mabel com a realidade tem o resultado esperado: pensa-se na sua internação. Mas o desenrolar da história da família não segue, felizmente, o tradicional e xaroposo vale de lágrimas de Hollywood. Há muito mais possibilidades de convivência e acordo entre as pessoas na imaginação de Cassavetes. Percorrê-las é um privilégio de quem acompanhar este filme intenso e luminoso, em que o tempo da ação corresponde ao tempo dramático do ator, sem pressa alguma. A montagem obedece a esse funcionamento interno da dramaturgia, seguindo um roteiro que empresta seu frescor da improvisação que o precedeu. Mas este não é um filme improvisado, apesar da aparência em contrário. Apenas na estréia do diretor, Shadows (1960), ele manteve a improvisação diante das câmeras.
Uma das maiores atrações da recente retrospectiva de cinco filmes do diretor – ao que se sabe, todos inéditos no circuito comercial brasileiro –, este drama abre uma oportuna retomada da circulação de sua obra, muito pouco vista no Brasil devido à crônica miopia dos distribuidores, mesmo nos espaços ditos de arte. A sala sempre lotada do Cinesesc paulistano, na semana de 9 a 15 de fevereiro de 2007, comprova que há público interessado neste tipo de cinema.
