03/06/2026
Drama

Maria Antonieta

Maria Antonieta não passa de uma adolescente austríaca quando é levada para a França, onde se casará com o príncipe Luis XVI, selando a aliança entre as duas nações. Porém, negligenciada pelo marido, a nobre se torna uma pessoa infeliz e busca alegria em prazeres mais fugazes, como roupas e comidas. Enquanto isso, aproxima-se a Revolução Francesa.

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“O problema do lazer, o que fazer por prazer” são as primeiras palavras que se ouvem em Maria Antonieta. Esses versos pertencem à música “Natural is not in it”, da banda Gang of Four, e dão a idéia clara em torno do tema em que o filme gravita: os deleites de um prazer pessoal e fugaz, comparado a coisas mais sérias, complexas e menos divertidas – como reinar na França, por exemplo.

Esse mundo da nobreza francesa do século XVIII sustentava-se na superficialidade. É exatamente sobre esse universo que a diretora Sofia Coppola quer falar. Essa abordagem pode dar a impressão de que o filme seja superficial – o que está longe de ser. Ao falar de um grupo de pessoas para quem os problemas sociais simplesmente passavam a quilômetros de distância não significa que o longa não esteja criticando essa atitude de uma nobreza tão fechada em si mesma que não percebeu que havia uma burguesia ascendendo e isso resultou na sua queda.

O mundo de Maria Antonieta, ao menos no filme, é uma confeitaria. Os figurinos de Milena Canonero (premiada com o Oscar) e a direção de arte transformam tudo em vistosos doces de vitrine. Desde sua imagem inicial, que corta os créditos, ainda ao som de Gang of Four, vemos a monarca (Kirsten Dunst) sentada num divã, se regalando com o glacê de um bolo, cercada de iguarias. É uma imagem que, ao mesmo tempo seduz e causa repugnância, por sua beleza e excesso.

Essa, aliás, é a reação que o filme tem causado desde quando estreou em Cannes, em maio de 2006. No festival, o longa chegou a ser vaiado. O que talvez tenha decepcionado muita gente – os franceses em especial – é que Maria Antonieta não é uma cinebiografia tradicional, nem um filme histórico. A história oficial, aliás, é respeitada até o ponto em que ela não atrapalhe a visão cinematográfica que a diretora tem dos personagens. O momento histórico é na verdade apenas o meio para se atingir algo mais complexo do que as relações de causa e conseqüência, ou as lutas de classe que movem os moinhos do tempo.

Sofia não está interessada numa narrativa, mas sim no estabelecimento de momentos e de um efeito. Para isso, motivos são repetidos com diferentes resultados. Ora vemos o rei (Jason Schwartzman) e a rainha tomando café da manhã. Ela o observa com respeito. Mais tarde, ela o olha quase sem paciência. Ou então os diferentes planos de Maria Antonieta contemplando o mundo através da janela de sua carruagem. Essa imagem, aliás, de uma personagem olhando o mundo de fora através da janela de um veículo é quase uma constante na obra da cineasta.

Maria Antonieta mantém uma relação visual e temática com os filmes anteriores de Sofia. Aqui, tem-se novamente uma jovem mulher sufocada em seu ambiente, em busca de sua própria voz. Desde As Virgens Suicidas (1999), passando por Encontros e Desencontros (2003), a diretora se mostra preocupada com a relação que se estabelece entre a sociedade e a formação da identidade das suas protagonistas. A solidão sempre tem um papel fundamental nessa busca. As virgens não podiam ter amigos, a personagem de Scarlett Johansson mal se encontra com o marido e vaga solitária por um hotel no Japão. Aqui, a monarca não está só – afinal é cercada de pessoas quase que constantemente – mas está solitária. Levada para França aos 14 anos, ela sempre foi vista como uma estrangeira, até uma espiã.

Sobre ela cai o peso de dar um príncipe herdeiro para a França e selar a aliança entre os dois países. Responsabilidade demais para uma garota – porque é isso que ela é – que não conhece nada além das dependências de Versalhes e espera anos até conseguir convencer seu marido Luís XVI a consumar o casamento. Assim, vemos a jovem ora lidando com seus prazeres fugazes, ora se culpando pela incompetência. Nada mais humano – muito distante da concepção da monarquia francesa da época em que o monarca era um escolhido por Deus, praticamente infalível.

Esse é um filme sobre o mundo de Maria Antonieta e nele política e povo praticamente não têm espaço. Só vemos a reação popular bem no final do filme, quando Luís XVI estava a um passo da degola. Essa cena é o momento em que a tal bolha cor-de-rosa (no caso, Versalhes) onde a rainha vive estoura e ela percebe que o mundo não é coberto de glacê real, como ela até então pensara.

Ao optar por retratar Maria Antonieta como uma jovem bem próxima das adolescentes que conhecemos, Sofia faz um diálogo entre passado e presente. Quer com isso dizer que os tempos mudam, mas os anseios, medos e prazeres nem tanto. Em especial na cena em que a personagem se delicia com um grupo de amigas escolhendo sapatos e tecidos (novamente a trilha sonora dá o tom, agora com “Candy”).

Maria Antonieta não é um filme informativo, não é uma aula de História, não começa, nem termina com letreiros explicando o que aconteceu com os personagens. Mas se há uma cartela que bem caberia aqui é aquela usada por Stanley Kubrick no epílogo de Barry Lyndon, guardadas as devidas proporções. “Foi no reinado de Jorge III que as pessoas supracitadas viveram e brigaram; bons ou maus, belos ou feios, ricos ou pobres, eles agora são todos iguais”. No caso do filme de Sofia, esse ‘iguais’ também pode caber.

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