Uma das melhores sacadas do filme – contribuição do roteirista Luiz Bolognesi - é justamente traçar este paralelo entre a viagem idílica dos Schürmann por paisagens belíssimas, nas Canárias, Brunei, Filipinas, Bali e outros lugares, e as turbulências crescentes que marcaram a expedição de Magalhães, à qual nem ele mesmo sobreviveu. Quando aquela viagem iniciada em 1519 terminou, três anos depois, não mais do que 18 marinheiros haviam sobrevivido. Na saída, a tripulação chegava a 300 homens.
A viagem de Magalhães vai sendo acompanhada a partir de relatos extraídos do diário do tripulante italiano Rigaleta, ilustradas com as animações do francês Laurent Cardon – que morou no Brasil entre 1995 e 2006.
Em que pesem a beleza das imagens e a indiscutível simpatia dos Schürmann – nesta viagem, acompanhados pela filha adotiva Kat, de seis anos, que morreu pouco depois – o documentário revela-se, afinal, um parente próximo das atrações de canais a cabo, do tipo Discovery Channel. Nada que deponha contra a qualidade da produção, que apresenta valor inegável. Apenas observa-se um pouco de falta de ambição no sentido de realmente revelar a fundo as paisagens e realidades humanas contatadas ao longo destes alegados mais de 60 mil quilômetros percorridos.
Todos os conflitos – mesmo os familiares - são relativizados, todas as contradições da realidade, evitadas. O retrato resulta um tanto adocicado, embora bonito.
