19/07/2026
Documentário

Hércules 56

Documentário que recupera os bastidores de um episódio marcante da História brasileira recente: a troca de 15 prisioneiros políticos pela vida do embaixador americano Charles Burke Elbrick, seqüestrado por grupos da luta armada em setembro de 1969. Entrevistam-se os nove sobreviventes do grupo, entre eles, o ex-deputado José Dirceu de Oliveira, o sindicalista José Ibrahim e o jornalista e ex-porta-voz do Palácio do Planalto, Franklin Martins. Imagens de arquivo completam o filme.

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Este potente documentário recupera os bastidores de um episódio marcante da história recente do País: a troca de 15 prisioneiros políticos pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick, seqüestrado por grupos da luta armada em setembro de 1969. Um evento que, além de exemplar dentro do quadro da ditadura militar, hoje traz à tona um notável grupo de personalidades em que se transformaram alguns dos ex-prisioneiros e outros idealizadores do seqüestro, no primeiro caso, o ex-deputado José Dirceu de Oliveira, no segundo, o jornalista e ex-porta-voz do Palácio do Planalto, Franklin Martins.

O diretor Silvio Da-Rin, competente documentarista e um dos melhores técnicos de som do cinema nacional, conduz seu filme com ritmo e solidez de informações. Cria clima a partir dos depoimentos dos nove sobreviventes do grupo original dos 15, partindo da famosa foto que os reúne antes da partida, tecendo ligações entre os relatos, dos quais emergem recordações, motivos e avaliações presentes sobre sua participação no dramático episódio de 1969. Entre as lembranças, o medo de serem atirados do avião – um Hércules 56, da Força Expedicionária Brasileira (FAB) -, seu desembarque no México, sua posterior ida a Cuba, onde foram recebidos como heróis por Fidel Castro.

Os presos trocados, aliás, não tinham relação direta com o seqüestro. Eram militantes políticos de diferentes facções, que estavam na cadeia, sofrendo torturas. Por isso, vários deles recordam com que expectativa acompanharam sua inclusão na lista dos passageiros que deixariam o Brasil.

Um dos bons momentos é quando se coloca na mesma mesa cinco dos cérebros por trás do seqüestro, idealizado e executado pela Dissidência da Guanabara (que depois assume o nome de MR-8) com a ajuda da Ação Libertadora Nacional (ALN) -, permitindo que reavaliem suas audaciosas ações e temíveis possibilidades – como preparar-se para a execução do embaixador, caso resultassem em fracasso as negociações com o governo militar. Por esses depoimentos, é possível reconstruir o tenso clima da época, no auge da ditadura militar, e o desespero das organizações armadas que tramavam a queda do regime, mas estavam perto de ser aniquiladas.

Ricas imagens de arquivo, que incluem noticiários da época, como a chegada do avião ao México e cenas mostrando alguns dos prisioneiros já falecidos – como o líder camponês Gregório Bezerra e Luís Travassos – completam com a devida densidade as discussões. Raramente se tem um documentário que cubra seu tema com tanto afinco e riqueza de detalhes. Embora fique claro que não há qualquer intenção aqui de ouvir o lado dos militares. Considera-se suas ações e já está de bom tamanho. O foco está em apresentar a versão de quem lutou contra a ditadura e hoje analisa em que se transformou o Brasil que emergiu deste e de outros dramas.

Uma ausência que alguns poderão notar é a do deputado Fernando Gabeira, participante do seqüestro e que se tornou um dos mais famosos do grupo especialmente por ter sido um dos primeiros a contar a história em seus livros ao voltar do exílio, como O Que é Isso, Companheiro?. A explicação do diretor é que Gabeira era “soldado raso” da operação e sua intenção era apenas ouvir os líderes.

Outra finalidade que cumpre Hércules 56, sem que essa seja sua intenção maior, é fornecer subsídios para repensar justamente o filme O Que é Isso, Companheiro (1997), de Bruno Barreto – causador de tanta polêmica entre os ex-integrantes da luta armada, que o julgaram inconsistente e, às vezes, falso.

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