Baseado numa série de crimes que assombraram os Estados Unidos no final dos anos 1960, Zodíaco passa longe de ser um suspense – apesar de ser um filme tenso. A identidade do criminoso e sua captura são o que menos interessam a Fincher – até porque os crimes não foram resolvidos até hoje.
A narrativa começa em 4 de julho de 1969, quando dois adolescentes são assassinados friamente em São Francisco. Tempos depois, o assassino manda uma carta para diversos jornais da cidade dizendo que vai continuar a matança caso eles não publiquem um código cifrado que ele também enviou.
A charada foi desvendada por um professor e sua mulher e dizia: “Eu gosto de matar pessoas porque é mais divertido do que matar animais na floresta, porque o homem é o animal mais perigoso.” As mensagens e cartas continuaram chegando aos jornais – assim como a descoberta de novos corpos.
No jornal San Francisco Chronicle, a apuração dos crimes fica a cargo do repórter Paul Avery (Robert Downey Jr.), que conta com a ajuda extra-oficial do cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal). No departamento de polícia, a investigação é conduzida pelos detetives Dave Toschi (Mark Ruffalo) e William Armstrong (Anthony Edwards). Nenhuma das duas frentes evolui muito em suas pesquisas para descobrir a identidade do assassino, apesar de todos os esforços para decifrar os códigos e agir rapidamente.
Graysmith decifra num dos códigos uma referência ao filme O Caçador de Vidas, e essa pista leva a polícia a Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch), que já tem um histórico de contravenções, mas não há evidências suficientes que o liguem ao assassino Zodíaco. Com o passar do tempo, a polícia começa a perder o interesse no caso, o bandido pára de atacar, mas a obsessão do cartunista não desaparece.
Zodíaco é um drama de escalas épicas. O longa cobre trinta anos na vida de seus personagens durante uma investigação que nunca foi conclusiva. O filme de Fincher é parte procedimento policial, parte investigação jornalística. Essa sua segunda faceta estabelece uma conexão com o clássico do gênero “Todos os Homens do Presidente”, que mostra a investigação de dois repórteres do jornal ‘The Washington Post’, que provocou a renúncia do presidente Richard Nixon, no escândalo de Watergate.
Não existe um apelo psicológico para explicar o comportamento do assassino. Fincher está mais interessado nas evidências reais. Ele é escrupulosamente detalhista e minucioso – sem ser excessivo ou virtuosístico.
O roteiro é baseado no livro escrito pelo próprio Graysmith, lançado nos anos 1980, recém- publicado no Brasil. A direção de Fincher, por sua vez, é segura com movimentos de câmeras sutis e uma fotografia bem cuidada de Harris Savides, que traduz em cores a descida dos personagens ao inferno.
Em uma de suas mensagens, o assassino Zodíaco sugere que sua vida daria um grande filme. E ele acertou. Só não se sabe se ele viveu para vê-lo.
