A câmera inquieta de Morten Soborg espia documentalmente a vida das crianças pobres da Índia. Nada gratuitamente. O enredo se nutre do abissal contraste entre os dois países, a caótica e calorosa Índia, e a antisséptica e fria Dinamarca.
Mergulhado num universo ao mesmo tempo extremamente sujo e colorido, desorganizado e afetuoso, está um dinamarquês, Jacob (Mads Mikkelsen, vilão de Cassino Royale, versão 2006). O rosto marcado entrega as muitas aventuras anteriores, trocadas pelo sereno trabalho num orfanato, onde tem cuidado paternal especialmente por um menininho de 5 anos, Promod (Neeral Mulchandani).
Contra a vontade, Jacob vai ter de voltar à Dinamarca, que ele abandonou há mais de 20 anos, justamente para conseguir uma dotação capaz de salvar o orfanato do fechamento. Do outro lado, quem o espera é o milionário Jörgen (Rolf Larsgard), que insiste em conhecer Jacob pessoalmente. E não só. Quando Jacob chega, envergando seu único e surrado terno, descobre que terá de atender a alguns caprichos do empresário, como comparecer ao casamento da filha dele, no dia seguinte.
A presença do estranho no casamento da jovem Anna (Stine Fischer Christensen) tem o condão de quebrar o verniz de normalidade que cobria todas estas vidas. Jacob e Helene (Sidse Babett Knudsen), a mulher de Jörgen, descobrem no primeiro olhar que se conheceram há muito tempo. A revelação que se produz a seguir não é do nível escandaloso de outro filme do Dogma, Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg. Ainda assim, tem efeito devastador, especialmente nas vidas de Jacob e Anna, únicos a ignorarem o segredo.
Ainda paga seu tributo ao Dogma a câmera inquieta, por vezes invasiva com seus freqüentes close-ups, do citado Soborg, construindo a atmosfera tensa entre estes personagens jogados num furacão emocional crescente – sobretudo quando se revela um outro segredo.
O uso intensivo da música viola um dos mais sagrados antigos preceitos dogmáticos, mas é bem utilizada. Susanne Bier, que já assinara os bons dramas Brothers (2004) e Corações Livres (2002), sempre em parceria com o roteirista Anders Thomas Jensen – inclusive em Depois do Casamento - comprova seu amadurecimento como diretora. Da Dinamarca, vem o exemplo de que melodramas não precisam ser derramados nem óbvios para convencer e emocionar. O trabalho de todos os atores, inclusive da novata Stine Fischer Christensen, merece todos os elogios.
Depois do Casamento concorreu ao Oscar de filme estrangeiro em 2007.
