Em parte, isto aconteceu por influência de Rosa. Mãe de dois filhos, Simon (Michel Jonasz) e David (Daniel Mesguich), ela temia que os nazistas voltassem. Por isso, nunca mandou circuncisá-los. O marido, o rabino Shmuel (Mosko Alkalai), já a abandonara há tempos. Sentindo que, depois da tragédia que dizimara seu povo na II Guerra, devia aprofundar seus laços com a religião, partiu para Israel. Rosa preferiu ficar e conviver com pessoas de todos os credos e culturas, embora sem no fundo perder a própria fé. Tanto que, ao morrer, os filhos descobrem, não sem surpresa, que ela comprou um jazigo no cemitério judaico.
A morte de Rosa leva os filhos a redescobri-la, lembrando de sua peculiar forma de apaziguar conflitos – dançando um tango, que nesta família tem acordes poloneses e soa um tanto curioso, para ouvidos acostumados com o estilo dos argentinos. De todo modo, o tango é a metáfora da integração, que é o dilema desta família excêntrica e amorosa, rejeitada por ortodoxos como Shmuel, que afirma que eles agora são “góis"(não-judeus).
Registram-se, no entanto, outras reações, como a de Nina (Tania Garbarski), neta da matriarca, que decide tornar-se realmente judia e exige o mesmo de um candidato a namorado, Antoine (Hippolyte Girardot). A situação do casal abre espaço para que o resto da família discuta a religião, inclusive com humor. O irmão de Nina, Jonathan (Jonathan Zaccaï), acha que ela é louca e que sua idéia não passa de moda passageira. "Daqui a alguns anos, ela vai se tornar budista. Ou vegetariana", ironiza.
A grande figura do filme, com certeza, é o velho Dolfo (Natan Cogan), cunhado de Rosa, irmão de Shmuel. Trazendo consigo a dura memória dos campos de concentração - que ele nunca compartilha com os sobrinhos-netos, como lhe cobra um deles -, ele carrega sua herança com respeito, mas nenhuma ortodoxia. Celebra a Páscoa, mas se irrita quando a mulher de seu sobrinho, Isabelle (Ludmila Mikael) - que não é judia, mas se comporta como se fosse -, insiste em respeitar demais as normas do ritual. O filme é construído, aliàs, à imagem e semelhança de Dolfo, que faz a ponte entre o passado e o futuro, representado por outro sobrinho-neto, Ric (Rudi Rosenberg). Sinal dos tempos, o jovem namora uma moça árabe.
Dirigido por Sam Garbarski e roteirizado por ele e Philippe Blasbland (autor dos roteiros de Uma Relação Pornográfica e Apaixonado Thomas), este filme retrata a cultura judaica de uma forma inusitada e enriquecedora, não esquecendo alguns toques contra a intolerância.
