03/06/2026
Drama

Em Busca da Vida

Na cidade de Fengjie, estão sendo demolidas as casas que serão cobertas pelas águas da hidrelétrica de Três Gargantas. Chegam à região duas pessoas procurando antigos relacionamentos: um mineiro de carvão busca sua ex-mulher e sua filha, que não vê há 16 anos, e uma enfermeira vem atrás do marido, que trabalha na obra.

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Nada mais apropriado para o filme do chinês Jia Zhang-Ke, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza/2006, do que seu título original – “Still Life”, que no universo das artes plásticas identifica o gênero natureza morta, em que se representam coisas ou seres inanimados. Mesmo o título em português, Em Busca da Vida, também não deixa de ser fiel ao que se vê na tela.

Em pouco mais de uma hora e meia, Zhang-Ke, diretor de Plataforma (2000) e um dos maiores nomes da chamada “sexta geração” do cinema chinês, transfere para o espectador o caráter contemplativo de sua obra, como se estivesse diante de uma tela. As paisagens são belas como as de um quadro, mas não deixam de ser angustiantes quando os personagens são encaixados em sua moldura.

Nesse sentido, o filme está muito próximo de um documentário, por retratar a dura vida a que são submetidos os trabalhadores da cidade de Fengjie, recrutados para derrubar as casas que serão cobertas pelas águas da hidrelétrica de Três Gargantas. Uma das maiores obras de engenharia do mundo, levou nada menos de 40 anos para ser concluída. Mais de 2 mil anos de história estão ali sendo sepultados para dar lugar ao progresso. Numa das margens do lago, estão as casas condenadas e, do outro, os prédios modernos já erguidos ou em fase de construção.

O filme também não deixa de ser um retrato bem realista do gigante chinês, cujo crescimento econômico é feito à custa do trabalho anônimo de uma massa trabalhadora submetida não raro a condições desumanas. Pouco importa às autoridades o destino das pessoas desalojadas que precisarão procurar outro local para viver, que pode ser embaixo de uma ponte ou nas construções precárias que se assemelham às favelas brasileiras.

Zhang-Ke escolhe dois personagens, que não se conhecem e não se conhecerão, mas que estão na mesma região por motivos semelhantes: Han (Han Sanming) é um trabalhador em minas de carvão que viaja para Fengjie para procurar a ex-mulher que não vê há 16 anos; Shen Hong (Zhao Tao, atriz constante dos filmes do diretor) é uma enfermeira que chega em busca do marido, funcionário graduado da empresa que constrói a barragem, do qual perdeu contato há dois anos.

Enquanto espera pelo momento de encontrar a mulher, com quem teve uma filha que não conhece, Sanming trabalha nas obras de demolição e cria, com o passar do tempo, um forte laço de camaradagem com os demais trabalhadores. A demolição é o único trabalho que restou a esses homens que, depois do serviço feito, terão de encontrar nova atividade em outro local. São como garimpeiros em busca de novas minas depois de exaurir todos os recursos minerais da terra que exploraram.

Sanming quer encontrar a ex-mulher para saber do paradeiro da filha, já adolescente. Shen procura o marido para colocar um ponto final em sua relação e poder continuar sua vida com outro homem. Diante da história de ambos, em busca da reconstrução de suas vidas, desenvolve-se o trabalho lento de demolição – a destruição que dará lugar a algo novo. Não deixa de ser uma parábola sobre a China moderna, erguida sobre os escombros de seu passado.

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