18/07/2026
Romance Comédia

Sem Reservas

Kate (Catherine Zeta-Jones) é uma respeitável chef, conhecida não só por seus pratos, mas também pela falta de autocontrole. Sua vida piora quando é obrigada a cuidar da sobrinha (Abigail Breslin), que ficou órfã, e também dividir sua cozinha com um novo colega (Aaron Eckhart), que quer roubar seu lugar. Remake do filme alemão Simplesmente Marta.

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Se não fosse autora de deliciosos pratos, a requintada chef de cozinha Kate Armstrong (Catherine Zeta-Jones) poderia ser considerada uma mártir da monotonia, uma espécie de Joana D’Arc do tédio. Enclausurada em uma vida rotineira e solitária, ela encontra em suas criações culinárias o único prazer no que os adeptos do auto-engano chamariam de vida social.

Forçada a freqüentar um terapeuta, com o qual trava um monólogo sobre receitas, Kate passa seus dias com a única meta de satisfazer aos prazeres gulosos dos endinheirados habitués do restaurante para o qual trabalha em Manhatan. A escolha por alta gastronomia para a ocupação da personagem faz sentido: nada mais impessoal do que a haute cuisine.

Esse é o tortuoso início desta comédia romântica, que é uma refilmagem do filme alemão Simplesmente Martha (de Sandra Nettelbeck), do qual conserva a mesmo enredo e alguns diálogos. Embora contenha, a princípio, certo ar depressivo, a concepção está baseada em personagens que modificam suas posturas por amor. Pode-se assim, relativizar as palavras do escritor Tennessee Williams: “quando tantos se sentem sós, é egoísmo continuar só sozinho”.

A trama realmente se apresenta quando se desenrolam os três conflitos dramáticos. O primeiro se dá com a morte da irmã da anti-heroína, que se vê obrigada a cuidar da sobrinha órfã, Zoe (uma talentosa interpretação da pequena Abigail Breslin, que herdou o carisma de sua personagem em Pequena Miss Sunshine). O envolvimento entre as duas não poderia ser menos aderente: não há qualquer identificação, exceto a sangüínea.

Enquanto isso, a dona do restaurante, Paula (a excelente atriz Patricia Clarkson, de Agente da Estação), vê-se obrigada a contratar emergencialmente um chef assistente. Este será o extrovertido Nick (Aaron Eckart, de Obrigado por Fumar), um sujeito cheio de maneirismos e bem humorado, que poderá roubar o emprego de Kate. Ou seja, um completo contraste.

Há, claro, o terceiro conflito – muito curioso – que se dá entre Paula e sua chef. Em uma situação-limite, uma das personagens chega a dizer que sem os dotes culinários de um bom cozinheiro, o restaurante, por mais badalado e endinheirado que seja, será sempre um espaço repleto de panelas.

Embora sejam previsíveis a articulação e solução dessas querelas emocionais, o que importa nessa refilmagem é como ela se desenrola. A empatia trazida pelos atores, somada aos bons diálogos, uma trilha sonora incidental com timing adequado e uma boa produção, tornam Sem Reservas atraente – tomando como premissa o seu gênero.

No entanto, existem certas ressalvas que devem ser feitas, proporcionadas por características do cinema americano comercial. Embora a história pudesse fluir homogeneamente, existe (com bastante freqüência) a decisão de exagerar nos apelos dramáticos - basta atentar, por exemplo, para a trilha sonora.

O público é levado, por meio de uma letargia condicionada, a chorar e a rir a cada página do roteiro. Assim, o que poderia ser compreendido como uma competência, no fim, torna-se um cansativo jogo de percepções, comparando-se a uma montanha-russa emocional. O fato de os personagens serem tão caricatos é prova disso.

Nessa questão, a versão americana se distancia de sua predecessora. Apesar de se basearem no mesmo roteiro, incluindo, diga-se mais uma vez, os diálogos, Simplesmente Martha tornava os conflitos menos evidentes e mais sedutores. Não se trata, aqui, de uma mera adaptação de nacionalidade. O que diferencia essas produções, embora ambas sejam vigorosas, é como cada cultura – e, no limite, de cada diretor - imprime sua própria marca.

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