Bombardeados que somos por noticiários tantas vezes com um viés um tanto satanizador e prejudicados pela grande distância do mundo muçulmano, tanto geográfica como cultural, muitas vezes tendemos a encarar os muçulmanos como uma massa homogênea de devotos, quando não de fanáticos, sem qualquer individualidade ou nuance. Por isso, estranhamos ver na tela que os ricos herdeiros e seus pais não observam o jejum prescrito para o período do Ramadã. Como é o caso de Rita (Morjana Alaoui), a bela protagonista desta versão moderna e atenuada do romance Romeu e Julieta.
Este ricos e bonitos jovens ricos marroquinos, na verdade, assemelham-se tremendamente a qualquer elite ocidental, a brasileira incluída. Não só no figurino – outra surpresa para quem esperava chadores ou até burcas nas meninas -, como na música, no comportamento.Todos usam jeans e camisetas. As meninas vestem roupas justas e decotadas. Fácil de entender: o foco desta elite marroquina está além de suas fronteiras. Estes adolescentes viajam ao exterior com bastante freqüência desde tenra infância. Comunicam-se entre si geralmente em francês, deixando o árabe para falar com os criados – estes sim observadores das tradições religiosas e trajes tradicionais.
Nada diferencia, neste aspecto, judeus e muçulmanos. Os jovens judeus envolvem-se nos mesmos rachas nas ruas de Casablanca, freqüentam as mesmas baladas, têm igual contato com bebida e drogas, consomem os mesmos jeans, CDs e DVDs. Por isso, não há muita dificuldade para que surja um romance entre a muçulmana Rita e o judeu Yuri (Matthieu Boujenah). Mas a interdição ancestral continua lá. Por isso, permanece secreto.
A diretora e roteirista explora com certa habilidade as contradições desta alta roda. Por isso, também ajuda a enxergar os limites da aparência. Esta sociedade, aparentemente moderna, não contempla tantas opções para suas moças. Uma das amigas de Rita, cujo pai perdeu a fortuna, é constrangida a casar-se por conveniência e manter a situação de sua família. Outra, que não tem dinheiro suficiente para cursar uma universidade fora do país, teme enfrentar nas escolas locais a influência dos “barbudos” – como eles mesmo chamam os mulás, defensores da tradição e da religião. Para os demais, o aeroporto é a solução.
É neste detalhe, mais do que no romance proibido, que reside o aspecto mais interessante do filme. Estudando na Europa, estes herdeiros moldam lá suas cabeças antes de fatalmente voltarem para tocar os lucrativos negócios de suas famílias – uma dinâmica comum a países colonizados e dependentes, que costuma ser dramática para estas nações, porque não se procura uma solução para esta dependência. Ela é, afinal, o que garante os lucros desta mesma elite. O filme não autoriza pensar que a diretora tenha pretendido levar tão longe uma crítica desta situação. Mas sem dúvida oferece elementos para que se reflita sobre isso.
