Os dois há muito tempo não se vêem, mas esta não é a maior diferença. Pai e filho pertencem a mundos opostos. O pai é um velho e endurecido lobo-do-mar, que fica seriamente abalado pelos modos urbanos do filho – que ele considera meio efeminados. O conflito entre gerações atinge momentos hilariantes, como quando o filho tenta escolher uma boina mais moderninha, levando o pai à loucura.
Há outro conflito de gerações envolvendo o maior rival do velho capitão, o magnata King (Tom McGuire), dono de um moderníssimo barco de passageiros, e sua filha Marion (Marion Byron). No caso, esta divergência tem mais a ver com a amizade da moça por Bill Jr., que foi seu colega de escola. Para piorar, está no ponto máximo a rivalidade entre os dois pais, cada um com seu barco e seu modo de transportar passageiros.
Dessas oposições básicas, constrói-se uma história que tira sempre proveito da espantosa habilidade física de Keaton, tarimbado ator de vaudeville desde a pouca idade de três anos (os pais, Joe e Myra, logo perceberam seu potencial e passaram a usá-lo em seus números). Assim, ele sobe e desce de barcos, cai n´água, voa por portas e janelas e sacadas e, na cena mais impressionante, sobrevive a inúmeros desastres causados por um furacão – o mais impressionante deles, quando a parede de uma casa lhe cai em cima e ele fica de pé, sem um arranhão, por ter-se postado exatamente debaixo de uma janela, providencialmente aberta.
Esta seqüência antológica foi realizada sem um único ensaio. Keaton dizia que confiava na sua produção e era bobagem desperdiçar uma parede... Foi esta a cena escolhida para marcar a estréia de outro ídolo cinematográfico, Mickey Mouse, em seu pioneiro desenho animado, Steamboat Willie, também de 1928, como este filme.
Não é a única seqüência genial. Outros momentos hilariantes acontecem quando Bill vai visitar na cadeia o pai, preso depois de uma manobra realizada por seu rival. O filho tenta passar-lhe um longo pão em que escondeu uma serra, mas o pai não entende e diz que não está com fome. As expressões faciais e os gestos pelos quais o filho o faz entender que deve aceitar o pão valem por si só assistir ao filme.
Nascido no mesmo ano que o cinema – 1895 -, Keaton foi uma de suas máximas expressões. Morreu em 1966, depois de um período de ostracismo e também redescoberta, pouco antes de sua morte. Em 1962, foi homenageado com uma retrospectiva da Cinemateca Francesa. Em 1965, recebeu tributo do Festival de Veneza.
