O diretor e roteirista Carlos Cortez não precisou fazer muitas modificações na obra original ao adaptar para as telas o romance Querô – Uma Reportagem Maldita, de Plínio Marcos. Embora o livro tenha sido escrito há mais de 30 anos, a situação que ele retrata – o menor abandonado – não mudou muito nessas décadas.
Querô (Maxwell Nascimento) é um adolescente órfão, que vive de um lado para outro, perdido pelas ruas próximas ao porto de Santos. Filho de uma prostituta (Maria Luisa Mendonça), ele desconhece o pai. A mãe suicidou-se quando ele era bebê tomando querosene – daí vem o apelido do garoto. Depois de apanhar muito nas mãos da dona de uma pensão (Ângela Leal), ele foge.
Querô vive de expedientes e envolve-se em pequenos roubos. Quando vai parar na Febem, explode toda sua revolta contra o mundo e ele se transforma. O menino sofre nas mãos dos colegas de instituição e do carcereiro (Milhem Cortaz), o que só aumenta o seu ódio.
Fora das grades, Querô encontra apoio em Gina (Claudia Juliana), que o leva a uma igreja evangélica. Ele se apaixona pela sobrinha do pastor, Lica (Alessandra Santos). Porém, o rapaz vive num mundo marcado pelo determinismo. Por mais que ele tente fugir da marginalidade, não consegue.
Quero mostra um universo típico de Plínio Marcos, com criaturas solitárias, vivendo à margem e esquecidas por todos. São ladrões, traficantes e prostitutas que não têm perspectivas na vida. Cortez filma tudo isso com honestidade, sem nunca olhar com superioridade ou julgar esses personagens.
O destaque no elenco premiado é o protagonista Maxwell Nascimento, que foi selecionado numa oficina realizada com adolescentes e crianças pobres de cidades da Baixada Santista (SP). O trabalho com esses jovens teve uma repercussão tão positiva, que até hoje o projeto é mantido, com realização de cursos profissionalizantes e outras atividades.
Rodado na região portuária de Santos, em Quero destacam-se a fotografia apurada de Hélcio Nagamine (Doutores da Alegria) e a montagem de Paulo Sacramento (O Prisioneiro da Grade de Ferro). O roteiro, co-escrito por Cortez, e Bráulio Mantovani (Cidade de Deus) e Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças), mantém o que há de mais contundente da obra de Plínio Marcos. A música, composta por André Abujamra, contribui para criar o clima desse submundo violento.
Desde sua primeira exibição pública, no Festival de Brasília no ano passado, Quero tem arrebatado prêmios. Neste, obteve os de melhor ator (Maxwell Nascimento), roteiro, direção de arte e som. No 17o Cine Ceará, venceu os de melhor longa, ator e montagem. No 14o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, melhor filme, ator, diretor, roteiro, direção de arte e produção.
