Mesmo partindo de dados reais, este trabalho, que competiu à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2006, não é um documentário. O roteiro é assinado pelo próprio Schlosser e pelo diretor. Linklater afasta-se, assim, de filmes recentes, como o desenho de ficção científica O Homem Duplo, para realizar um drama com forte conotação política já que, partindo da comida, monta uma radiografia do mal-estar contemporâneo na América.
Don Anderson (Greg Kinnear, de Pequena Miss Sunshine) é o vice-presidente da gigantesca rede de lanchonetes Mickey, que tem seu carro-chefe no sanduíche Big One – qualquer semelhança com a McDonald’s não é mesmo mera coincidência. Um dia, Don é destacado para investigar uma preocupante contaminação por coliformes fecais que está afetando os hambúrgueres consumidos na companhia, antes que o assunto ganhe destaque na imprensa.
Para isto, o executivo viaja até Cody, no Colorado, onde fica a fábrica de processamento de carne. Pai de família modelo, protótipo do homem comum americano, Don começa a descobrir um mundo, para ele desconhecido, que associa a fabricação dos hambúrgueres com um circuito de exploração não só de animais, como de homens.
Fazem parte desta máquina infernal um inescrupuloso fornecedor de gado (Bruce Willis), um atravessador de imigrantes ilegais mexicanos (Luis Guzman), um experiente rancheiro local (Kris Kristofferson) e os empregados do matadouro, como as irmãs mexicanas Sylvia (Catalina Sandino Moreno, de Maria Cheia de Graça) e Coco (Ana Luisa Talancón, de O Crime do Padre Amaro).
A história amplia seu foco para sustentar uma crítica ao próprio modo de vida americano, que tem no fast food uma de suas manifestações mais evidentes. Assim, entram no filme personagens de algum modo afetados por ele, como a garçonete idealista Ambers (Ashley Johnson), que pretende escapar do trabalho na lanchonete, e seu politizado tio Pete (Ethan Hawke).
A comida e seu processo de produção tornam-se metáforas desse tremendo processo de devoração e autodevoração de sonhos, trabalho, tentativas de reação. Nação Fast Food... é um retrato cruel e pessimista de uma nação que perdeu de vista seu projeto, bem como os ideais de seus fundadores. E, o que é pior, aquele país não está sozinho no mundo nesse barco desgovernado. Procuram-se uma utopia, uma saída, urgente.
