A premiada documentarista Sandra Kogut (Passaporte Húngaro) é uma diretora de coragem. Não apenas porque para seu primeiro longa de ficção ela escolheu adaptar uma novela de Guimarães Rosa, mas, especialmente, pela forma como escolheu para contar uma história. Para levar essa trama à tela, a diretora não se deixa render por simplesmente narrar, mas, sim, transportar o público para dentro desse universo.
Mutum baseia-se em Campo Geral, considerado por Guimarães Rosa seu livro preferido. Conta a história de um menino que vive com sua família num lugar chamado de Mutum. O garoto mora com os pais, os irmãos e a avó, no meio do sertão de Minas Gerais. Embora exista uma narrativa na forma convencional na novela, o que soma força são as experiências do menino, que nem sempre sabe interpretar os fatos do mundo adulto.
Embora no filme a diretora deixe de fora muito do que há no livro de Rosa, ela se atém ao mais importante: captar o espírito sensível do menino num mundo que preza pelo rude. No filme, o protagonista atende pelo nome de Thiago (Thiago da Silva Mariz). Vemos esse universo filtrado pela sensibilidade de Thiago – não apenas visual, mas também sonora. O garoto não compreende bem o mundo adulto, já sem esperanças e calcado no cinismo. O encanto do garoto é a ingenuidade. Quando volta da crisma na cidade grande, traz um presente para os irmãos: fotos de mulheres nuas, achando que são imagens de santas.
Mais tarde, Thiago assiste a uma briga entre o pai (João Miguel, de “Cinema, Aspirinas e Urubus”) e a mãe (Izadora Fernandes). Incapaz de interferir, o menino chora. Logo depois, o irmão Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso) adoece, e, novamente, Thiago não consegue fazer nada. A trajetória do menino vai sendo guiada por esses momentos de impotência que o fragilizam ao mesmo tempo que desencadeiam um processo de amadurecimento.
Ao trazer em cena momentos diretos da narrativa do livro original, Sandra e sua co-roteirista, Ana Luiza Martins Costa, mantêm-se fiéis ao universo do escritor, ao mesmo tempo, sem abrir mão de realizar um filme dotado de personalidade própria. Muito disso se deve à experiência como documentarista da diretora. Assim, sua câmera nunca é intrusiva, permitindo manter a autenticidade dos atores novatos - muitos dos quais nem conheciam o cinema antes desta experiência. O fato de ser rodado em locação, com pessoas que conhecem o cotidiano de uma fazenda como a retratada na história, só contribui para reforçar a delicadeza e segurança com que o filme é construído.
Tão importante quando a imagem, em Mutum, é o som. Aqui, a ausência de trilha sonora obriga a prestar atenção ao som ambiente. Dele afloram os ruídos que constituem a vida de Thiago. São os barulhos emitidos pelos animais, em especial as aves, o vento que passa pelas árvores, a água, enfim, sons da natureza – que representam a pureza da alma do garoto.
Mutum é, assim como Campo Geral, uma história de crescimento. O protagonista passa por um processo longo e doloroso para tornar-se adulto. Embora ainda incompleto – esse processo nunca tem fim – o garoto já não é mais o mesmo depois dessa jornada. Pode ter perdido sua ingenuidade, mas sua sensibilidade, essa chega ao final intacta – apesar do mundo conspirar contra isso.
O longa estreou na 39a Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes, em maio passado. E, em setembro foi o grande vencedor do Festival do Rio.
