Documentário especialíssimo, que levou aproximadamente cinco anos para ser concluído, reconstitui de maneira apaixonada, original e em alguns momentos insólita a vida e a personalidade do escritor paraibano José Lins do Rego (1901-1957).
Sem esquivar-se à polêmica, o filme do veterano Vladimir Carvalho revela tanto as luzes quanto as sombras que moldaram a trajetória do autor de Fogo Morto e Menino de Engenho. Assim, menciona-se um dos episódios mais traumáticos da vida de Lins, quando, ainda menino, matou outro garoto num acidente com uma arma do pai.
Nem só dessa têmpera trágica era feito o escritor, como revelam os depoimentos de vários amigos. Um dos pontos altos está no testemunho da escritora Rachel de Queiroz, que morreu durante a produção do filme, em 2003. Mais emocionado é o longo depoimento do poeta Thiago de Mello. Ele relembra os últimos anos de Lins, quando sofria muito com os efeitos da esquistossomose, o que acarretava hemorragias constantes e grande sofrimento.
O também paraibano Ariano Suassuna coloca um toque de polêmica quando, ao comentar a grande amizade entre Lins e Gilberto Freyre, dá a entender que Freyre, mesmo sendo um grande escritor, autor de Casa Grande e Senzala, “não seria capaz de escrever um romance”.
Mais polêmico foi o autor carioca Carlos Heitor Cony ao afirmar que “o modernismo não criou nada”, referindo-se ao movimento lançado pelos paulistas Mário de Andrade e Oswald de Andrade na famosa Semana de 22. Para Cony, “o modernismo mesmo existiu no Nordeste”, na obra de escritores como o próprio Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e outros.
Posições discutíveis à parte, o filme explora seu próprio ritmo de maneira peculiar. Vladimir Carvalho tem a coragem de deixar estender-se as conversas, bom proseador que ele mesmo é. Assim, colhe o momento mais engraçado em outra fala de Suassuna, que aborda assuntos estranhos a Zé Lins – a entrada de um cachorro numa peça de teatro – e se detém para olhar um avião que passa e cujo barulho interrompe a conversação. Momentos como esse escancaram a ética do documentarista, que incorpora o acaso ao tecido deste filme tão vivo e emocionante.
Vladimir não hesita em desviar-se da literatura para expor a paixão de Lins pelo Flamengo, uma torcida que mais de uma vez atingiu as raias do absurdo, levando o autor a ultrapassar mesmo o bom senso. Estes detalhes iluminam, mais uma vez, a identidade deste homem, contraditório como todos.
O Engenho de Zé Lins conta com uma cuidadosa pesquisa fotográfica, que documenta todas as passagens da vida do escritor, seus familiares, amigos (há diversas fotos de Gilberto Freyre, inclusive uma dele nu), e também imagens do antigo engenho pertencente à família Lins do Rego, hoje em ruínas e ocupado por famílias de sem-terra. O tema aqui é também o tempo e seu inadiável poder de tudo transformar.
