03/07/2026
Drama

Estamos bem mesmo sem você

Abandonado pela mulher, Renato Benetti cria os filhos sozinho e procura iniciar uma empresa sua. Um dia, a mulher volta para casa e abala a segurança da família.

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O ator Kim Rossi Stuart, o pai hesitante de As Chaves de Casa, estréia na direção com este drama em que novamente se aborda uma relação pai-filho.

Há um foco indiscutivelmente masculino neste retrato de uma família disfuncional, mas cheia de afeto. Há toda uma ênfase nos homens abandonados, a partir da história do câmera freelance, Renato Benetti (Kim), que procura levar a vida, tocando uma nova empresa e criando sozinho os dois filhos, Viola (Marta Nobili), de 15 anos, Tommi (Alessandro Morace), de 11.

O abandono, na verdade, atinge todos os três. A mãe, Stefania (Barbora Bobulova), vive deixando-os para trás em busca de novas paixões e de uma vida mais glamourosa. Passado algum tempo, ela volta, pede perdão, arrebenta em pedaços a frágil ordem instalada depois de sua partida.

O ciclo vicioso destas idas e vindas estilhaça a sensibilidade do marido, que oscila entre a ternura e a raiva com compreensível freqüência. As crianças reagem cada uma a seu modo às contradições da situação. Viola, erotizando-se inclusive em relação ao irmão. Tommi, fechando-se numa couraça defensiva.

Há muito o que ler nos olhos desse menino, que luta contra uma cobrança enorme do pai, que quer vê-lo campeão de natação – ainda que Tommi prefira o futebol. Filho caçula, ele resiste às investidas dos pais e da irmã para controlá-lo. Tommi só se sente em paz sozinho em seu esconderijo, no telhado do prédio. Lá no alto, é o único lugar em que ele consegue colocar sua vida em perspectiva.

Diretor de primeira viagem, que acumula as funções de co-roteirista e intérprete, Rossi Stuart defende seu projeto com total integridade. Sempre se acredita na verdade destes personagens de classe média, remediados financeiramente, oprimidos por toda espécie de tarefas, cobranças, angústias. Roteiro e direção não procuram dourar a pílula, nem encontrar soluções definitivas para os problemas dos personagens, criando para eles uma existência matizada entre luz e sombra..

Rossi Stuart brilha na pele deste pai emocionado, quebrado por dentro – que vida amorosa ele pode ter, nestas condições? -, errando com os filhos por cobrar deles uma maturidade que ainda não têm, mas amando-os, apesar de tudo. Não há uma grande tragédia em curso, exceto desta mãe que se ausenta e tenta voltar, submetendo a família, e ela mesma, a uma gangorra emocional insuportável. Na história, ela tem chance de se explicar. Não se procura julgá-la, apenas apresentar suas razões para uma vida inconstante.

Lidando com uma emoção estourada algumas vezes, o filme não perde o rumo. Não há mortos, só feridos emocionais neste viagem, em que não se dispõe dos confortos nem da religião, nem da filosofia, nem da psicanálise.

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