O tom que Ozon busca, e isso fica claro já nos créditos, é satirizar os melodramas. Porém, sem muita ironia ou sagacidade, Angel cai no mesmo nível água-com-açúcar que tanto tenta ironizar. A personagem sonha ser escritora, mas, sendo de um meio social pobre, aparentemente não tem a menor chance de conseguir realizá-lo. Um pouco de sorte e os contatos certos permitirão a sua ascensão social e financeira.
No início do século XX, Angel, filha de um comerciante (Jacqueline Tong), já mostra alguns dons para fazer uma literatura romântica e barata, colocando seus sonhos apaixonados de menina no papel. A sorte parece lhe sorrir quando um editor de Londres, Théo (Sam Neil, Jurassic Park III), gosta de uma de suas histórias. A garota muda-se para Londres, cheia de si e achando que fará um enorme sucesso.
Angel é teimosa e não abre mão do que escreveu, não aceitando mudanças nem em erros evidentes de seu texto. Théo tem facilidade em vender a literatura feita por sua nova protegida, o que garante a ela uma boa renda. Porém, mudanças na sociedade edwardiana pouco antes da Primeira Guerra Mundial atrapalharão os planos da escritora.
Agora que está riquíssima, Angel compra a casa que sempre sonhou, uma mansão que batiza de Paraíso. Também contrata uma secretária (Lucy Russell, de A Inglesa e o Duque), irmã de um pintor fracassado, chamado Esmé (Michael Fassbender, de 300), por quem a protagonista é apaixonada.
A vida de Angel é um vale de lágrimas amargas. Nada parece dar certo – exceto o sucesso material. Não consegue concretizar a sua paixão, não se firma na sociedade – afinal, não é bem-nascida – e na verdade não tem amigos.
Ozon carrega nas tintas e bem antes da metade abandona o tom irônico do início, para afundar num melodrama pesado, com personagens sem nuances ou simpatia. A protagonista é interpretada por Romola no piloto automático, o que transforma Angel numa autômata chata – algo bem longe de um ser humano.
Para um diretor que dissecou tão bem altos e baixos de uma relação amorosa em 5 X 2 – Os Cinco Tempos do Amor, aqui parece conhecer pouco da dinâmica entre homem e mulher. A relação entre Angel e Esmé nunca parece convincente, afinal, os dois são tão absorvidos em si mesmos que acreditar que amam uma outra pessoa é praticamente impossível.
Se a intenção de Ozon era fazer um filme à moda antiga, ele conseguiu em alguns aspectos – em especial quando deixa de lado uma certa leveza e naturalismo. Porém, aqui não há uma releitura de melodramas antigos, mas um filme que parece mofado, parado naquele tempo em que pretendia criticar.
