Trata-se do terceiro filme de Hopkins como diretor. Nele, ele também atua, produz e assina a trilha musical. O primeiro, Dylan Thomas: Return Journey (1990), era uma cinebiografia do famoso poeta galês, falecido em 1953. O segundo, Outono de Paixões (1996), recriava a peça Tio Vânia, do russo Anton Thecov, no ambiente do País de Gales, terra natal do diretor.
Em Um Sonho dentro de um Sonho – um nome tirado de uma frase do poeta Edgar Allan Poe (1809-1849) -, o ator e diretor muda completamente de estilo, arriscando-se numa história complexa, que se ambienta em realidades paralelas a partir da imaginação de um velho roteirista e escritor, Felix Bonhoeffer (Hopkins).
Enquanto está escrevendo um roteiro de suspense, Felix começa a conviver com a sensação estranha de ver na vida “real” pessoas que são personagens de sua história. Enquanto isso, no filme em produção, observam-se inúmeros problemas no set.
Também se vêem seqüências do próprio filme baseado no roteiro de Felix, como uma cena particularmente tensa numa lanchonete. Lá, dois bandidos (Christian Slater e Jeffrey Tambor) apavoram os funcionários e acabam matando um deles (Michael Duncan Clarke). Logo depois, o “morto” aparece diante da casa do escritor, exibindo um grande ferimento na cabeça e protestando: “Por que você me matou?”
Há uma preocupação em fazer piadas cinematográficas, como colocar na cena da lanchonete o próprio ator Kevin McCarthy, protagonista de Os Invasores de Corpos (1956), depois de uma conversa em que os dois bandidos discutiam aquele antigo suspense.
O produtor do filme (John Turturro) também aparece no monitor do computador de Felix, sempre bravo e gritando – especialmente quando vê o roteirista cochilando. Afinal, o que se espera dele é que reescreva as cenas, escreva outras, para que a produção em crise possa continuar.
Ironizando, desta forma, as tensões corriqueiras de seu próprio ambiente de trabalho, mas que em geral não são vistas pelo público, Hopkins cria um filme que exige de seus espectadores uma atitude especial, para que não se percam no emaranhado de situações estranhas.
Há momentos em que esta história lembra Medo e Delírio em Las Vegas (1998), de Terry Gilliam, e vários filmes do diretor David Lynch. A diferença é que Hopkins não consegue, como Lynch, criar um universo próprio, com regras peculiares. Assim, seu filme parece mais um longo exercício de estilo, onde fica difícil seguir as pistas para chegar a algum lugar.
O próprio Hopkins, quando apresentou Um Sonho dentro de um Sonho no Festival de Sundance, em 2007, preferiu definir este trabalho como “apenas uma pequena brincadeira”. Mas daquelas que requerem um senso de humor muito, muito particular.
