Não se espera esse tipo canhestro de censura à liberdade de expressão no século 21, muito menos num país europeu. Mas é justamente o que acontece às claras sob o domínio do bilionário político, um magnata da mídia, dono de editora, jornais e emissora privada de TV que, ao se tornar primeiro-ministro, passa a controlar efetivamente 90% da mídia italiana.
O que choca, neste caso, é não só o desplante do governante italiano em repetir comportamento que caracterizou um seu antecessor, o ditador Benito Mussollini – com quem é sempre comparado, com muita razão. Espantoso é que a comediante Sabina Guzzanti não tenha recebido apoio massivo e incondicional na Itália. Vários órgãos de imprensa, ao contrário, preferiram publicar artigos difamando Sabina, tornando-se cúmplices de uma trama absurda contra a artista.
Documentarista vivaz, ela enumera todos estes fatos, expondo os participantes de sua demissão diante de sua câmera, com o fôlego engajado de um Michael Moore. Alguns dos melhores momentos, no entanto, vêm de sua própria caracterização como o primeiro-ministro, envergando uma máscara, careca e um terno com enchimentos nos ombros que a tornam hilariamente parecida com Berlusconi – além do seu tom de voz empolado, que ela assume.
É envergando este figurino de seu número na TV que ela protagoniza um momento engraçado, ao lado do comediante escocês Rory Bremner, conhecido imitador do então primeiro-ministro inglês Tony Blair. Se dentro de seu país, Sabina não teve todo o apoio, fora dele, não lhe faltou. Na França, ela encontra outro humorista habituado à sátira dos poderosos do momento, Bruno Gaccio, tendo com ele uma conversa onde se evidencia o retrocesso das liberdades democráticas na Itália, em comparação à França.
Com Berlusconi de volta, pessoas como Sabina e o cineasta Nanni Moretti – que fez contra Berlusconi o filme de ficção O Crocodilo - deverão novamente ter problemas. Tomara que eles e outros continuem a demonstrar a mesma garra e empenho contra esse tipo de obscurantismo que, na Itália, nos EUA e em outros lugares, teima em tentar se instalar.
