O ano da história é justamente o da queda – 1989. A trama começa um pouco antes, captando o auge da mediocridade e autoritarismo do regime. Eva Matei (Doroteea Petre) á uma jovem de 17 anos. Mora com os pais (Mircea Diaconu e Carmen Ungureanu) e o irmão menor, o adorável Lalalilu (Timotei Duma).
A vida da família Matei, como a de seus vizinhos, é marcada pela escassez de recursos, sonhos, planos e horizontes. Nesse cotidiano um tanto rude, Eva tem um romance com o vizinho Alexandru (Ionut Becheru), cujo pai (Grigore Gonta) é figura temida, por ser policial – e que se vale de seu pequeno poder.
Num dia em que cabulam aula para namorar numa sala da escola, Alexandru e Eva quebram sem querer um busto de Ceausescu. A travessura cobra seu preço maior de Eva, porque ela se recusa a dar qualquer explicação. Acaba expulsa da Juventude Comunista, inclusive com o voto do namorado, que acreditava que não passaria disto. Mas ela é expulsa da escola e relocada numa espécie de reformatório. Por ser filho do policial, Alexandru fica impune e é desprezado por Eva.
No novo ambiente, Eva é confrontada com uma realidade mais dura. Entre os colegas, está Andrei (Cristian Vararu), filho de pais dissidentes que nunca são vistos, levando a imaginar que estão presos ou foram mortos. Entre os dois, forma-se uma espécie de aliança entre rejeitados, já que os dois não se enquadram entre os rebeldes sem causa do reformatório, que investem sua energia na destruição sem objetivos.
Como praticamente todos os habitantes do país, Eva e Andrei pensam em fugir. Como o plano é atravessar o rio Danúbio, começam mesmo a treinar como permanecer em água gelada, enchendo de gelo uma velha banheira nos fundos da casa dele.
Um registro mais poético deste sonho da vida nova é dado numa seqüência em que Lalalilu e seus pequenos amigos conseguem envolver os adultos numa brincadeira. Como se estivessem todos num mágico submarino, cada um deles diz para onde gostaria de ir, “pagando” a tarifa correspondente aos meninos.
Na parte final, são usadas cenas reais, filmadas pela televisão romena, documentando a inesperada rebelião popular contra o ditador – que acabou morto pelos populares. O longa de estréia de Catalin Mitulescu, que teve como produtores associados ninguém menos do que Martin Scorsese e Wim Wenders, rende um retrato de época de seu país, pintado com tintas melancólicas, filtradas por alguma beleza. Mostra como foi importante manter a imaginação ativa e os sentimentos vivos para sobreviver a tanta doutrinação – representada em várias cenas na escola.
Um ponto irregular está na montagem, que parece um pouco apressada, fragmentando dramaticamente o filme.
