Uma das personagens do documentário é justamente a uruguaia Lílian Celiberti, cuja detenção em Porto Alegre, ao lado do marido Universindo Dias, em 1978, foi descoberta pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo João Baptista Scalco, publicada na revista Veja, provando a participação do Brasil na operação.
Um dos momentos mais consistentes – e também emocionantes - do documentário vem dos depoimentos de dois jovens irmãos uruguaios, Anatole e Victoria, retirados aos pais militantes de esquerda – que foram assassinados -, e abandonados numa praça em Valparaíso (Chile), quando as crianças tinham apenas quatro e um ano, respectivamente. Curiosamente, sua localização junto a uma família adotiva passou pelo Brasil, tendo a participação do então arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, e da comissão Justiça e Paz. Mas trata-se de um raríssimo final feliz entre os milhares de seqüestros de crianças filhas de opositores às ditaduras militares, ocorridos na Argentina e no Chile, e que constituem uma sinistra originalidade dos regimes do Cone Sul.
Também empresta maior legitimidade ao documentário ter obtido testemunhos do outro lado. No Brasil, fala Jarbas Passarinho, ministro em três governos militares, e no Chile, ninguém menos do que o general Manuel Contreras, braço direito do falecido ditador Augusto Pinochet e comandante da DINA, a temível polícia política chilena, responsável por milhares de mortes, torturas, assassinatos e “desaparecimentos” – outra triste originalidade dos repressores latino-americanos, apontada pelo jornalista norte-americano John Dinges, por muitos anos correspondente na América Latina e autor do livro Os Anos do Condor, uma das entrevistas mais sólidas deste filme.
Entre as imagens de arquivo mais raras, estão cenas de campos de prisioneiros políticos argentinos que, como recorda um deles, eram obrigados a decorar 32 hinos militares e espancados quando não conseguiam cantá-los. Não poderia faltar também a entrevista de Hebe de Bonafini, a idealizadora da famosa organização Mães da Praça de Maio, um dos movimentos civis que mais contribuíram para que estas denúncias tivessem exposição internacional.
O fato de que Condor poderia ser um pouco mais enxuto e ter menos música (embora esta, de autoria de Victor Biglione, seja bonita) – depositando sua força em seu explosivo conteúdo – não diminui seus méritos. Até porque, como reitera o advogado Luiz Carlos Greenhalgh, esta é uma página que está longe de ser virada na História do Brasil, onde restam por ser abertos os arquivos da ditadura sobre a guerrilha do Araguaia e outros temas.
O filme teve sua estréia no Festival de Gramado do ano passado, onde recebeu o prêmio do Júri. No Festival do Rio, recebeu o troféu de melhor documentário.
