Mais de três décadas depois da destruição dos negativos de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro num incêndio num laboratório em Paris, o longa de Glauber Rocha foi restaurado, sob curadoria do brasileiro radicado na Inglaterra João Sócrates Oliveira – um dos maiores especialistas internacionais em restauração de filmes, que assinou a recuperação de obras como Cabíria (1914), de Giovanni Pastrone -, contando-se com a supervisão de fotografia de Affonso Beato, que também foi diretor de fotografia do filme.
O Dragão da Maldade... foi lançado originalmente em 1969. Naquele ano, ganhou o Prêmio de Direção do Festival de Cannes, além de estampar a primeira capa em cores da revista francesa Cahiers du Cinema, conquistando admiradores pelo mundo todo – como o cineasta norte-americano Martin Scorsese. O filme é uma espécie de seqüência de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), trazendo novamente o personagem Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um mercenário matador de cangaceiros.
Em O Dragão da Maldade... surge o cangaceiro Coriana (Lorival Pariz), que se diz ser a reencarnação de Lampião. Anos depois de ter matado Corisco, Antonio das Mortes fica intrigado com essa nova figura e vai até a pequena cidade de Jardim das Piranhas para encontrá-lo.
Se, num primeiro momento, o Dragão da Maldade é o próprio Antonio das Mortes, mais tarde será um latifundiário quem assumirá essa posição. O próprio Glauber disse certa vez que “tais papéis sociais não são eternos e imóveis e que tais componentes de agrupamentos sociais solidamente conservadores, ou reacionários, ou cúmplices do poder, podem mudar e contribuir para mudar. Basta que entendam onde está o verdadeiro dragão.”
Por isso, de certa forma, O Dragão da Maldade...é um despertar da consciência de Antônio das Mortes, que começa a ver com outros olhos a estrutura sócio-econômica do Brasil, descobrindo quem é o verdadeiro inimigo do povo.
Essa jornada de Antônio das Mortes é povoada com personagens secundários, como um professor desiludido (Othon Bastos), um delegado ambicioso (Hugo Carvana), um padre em crise (Emmanoel Cavalcanti) e uma mulher solitária (Odete Lara).
A força de O Dragão da Maldade... está não apenas em suas alegorias sobre o Brasil – que, passadas tantas décadas, ainda são bem pertinentes – mas também em suas imagens belas e poderosas. Por isso mesmo, o filme merece ser visto e revisto.
