Claramente, a esguia Audrey segue as pegadas da outra Audrey tão magra quanto ela, a Hepburn, protagonista daquele filme, baseado em história de Truman Capote, dirigido por Blake Edwards.
Por essa pegada que procura a elegância, a ironia, embora todo mundo saiba de cara que a doce Irene (Audrey Tautou) siga aquela que se diz ser a mais velha profissão, o filme não cai na vulgaridade. Todo mundo sabe o jogo mantido entre esta bela jovem e os velhos ricos com quem ela circula. Como Jacques (Vernon Dotcheff), que, como todos os idosos acompanhantes de Irene, estão satisfazendo a própria vaidade ao ostentar sua beleza nos ambientes em que circulam. E que são hotéis, cassinos, lojas, no sul da França, entre a Riviera Francesa e Monte Carlo.
Irene é aplicada e se deu bem com Jacques. Ele paga todas as suas contas e mantém seus hábitos caros, de champanhe a roupas no valor de vários dígitos. Ela corresponde com sorrisos e adulação. Ela até é capaz de alimentar o plano de um futuro tranqüilo – porque, sabiamente, poupa em proveito próprio, pensando no dia em que tudo acabar e ela não precisar mais disto.
O elemento-surpresa é um discreto garçom, Jean (Gad Elmaleh, de Xuxu). Ele trabalha num luxuoso hotel e é incapaz de dizer não. Por conta disto, ele acumula funções que nada têm a ver com a sua própria, como passear com inúmeros cachorros de estimação dos hóspedes.
Com a sua cara de Buster Keaton, ele encontra Irene sozinho um dia, altas horas, no bar do hotel. Ela o confunde com um rico hóspede e ele mantém a mentira. Como tem acesso às suítes mais luxuosas do hotel, ele consegue manter o engano por toda uma noite. Uma noite que será fatal para Irene, que será despachada por Jacques, sem direito a manter o cartão de crédito e muito menos as roupas que ele comprou para ela.
Na rua da amargura, ela vira uma fera contra Jean – com bastante razão. Um ano depois, eles se reencontram e ela põe para funcionar um plano de vingança. Por conta das artimanhas da sorte, Jean acaba, ele mesmo, tornando-se protegido de uma ricaça, Madeleine (Marie-Christine Adam).
Agora que estão no mesmo barco, Irene e Jean têm algumas figurinhas para trocar. Mas será que é só isso? O tempero é romântico e o filme, como se sabe, não pretende dizer nada sério. É de efeito leve, como champanhe.
