Depois de estrear no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP do ano passado, Nome Próprio venceu o prêmio de melhor filme e também o de melhor atriz para Leandra Leal no Festival de Gramado 2008.
Raramente vemos uma atriz tão exposta num papel – e isso nada tem a ver com as várias cenas de nudez no filme. Leandra é capaz de transitar entre as nuances de sua personagem, explorando tons que vão desde uma menina ingênua e desprotegida a uma espécie de cyber femme fatal tão perigosa quanto confusa. Bem diferente da espevitada Elzinha, seu personagem de sucesso na novela Ciranda de Pedra. É o trabalho da atriz que consegue elevar Camila acima de uma chata sofredora.
O roteiro é baseado em textos da blogueira gaúcha Clarah Averbuck, que fez sucesso na internet no final da década passada. Camila, um alter-ego da escritora, é uma jovem que se mudou para São Paulo com o namorado. Logo no início do filme, ele a expulsa de casa aos pontapés porque ela o traiu.
Camila segue a cartilha do escritor autodestrutivo, afundando-se em álcool, cigarros, comprimidos e sexo casual. É uma personagem que chega a ser amoral, não se importando de viver às custas de um desconhecido ou seduzir o namorado da melhor amiga na frente dela. Isso não impede que tanto o diretor, Murilo Salles, quanto a atriz encontrem o lado mais humano da personagem.
De certo modo, Camila lembra muito a protagonista de Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, tamanha a sua ingenuidade e a forma como suas ilusões são destruídas pelas rasteiras da vida. Ao contrário daquela personagem, porém, Camila não tem uma visão romantizada do mundo ou do amor. Sabe que a vida é cruel com os mais frágeis.
Assim, meio inconscientemente, ela vive uma via crúcis de autodescoberta. Afinal, parece compreender a personagem, ela só poderá ser amada depois que amar a si mesma. No entanto, sua personalidade autodestrutiva e sua insegurança tornam as pedras desse caminho quase intransponíveis. A internet tem um papel curioso na vida de Camila. É o seu elo mais forte com o mundo. Seu blog, como ela mesma diz, ‘não é um diário’, mas, sim, a sua forma de existir.
Nome Próprio é, aliás, um dos primeiros filmes brasileiros a investigar como a internet afeta as relações humanas nesse novo início de século. A ação é situada em 2001, quando ainda não existiam Orkut e afins. Nem por isso as principais relações da protagonista deixam de acontecer online.
Camila escreve, sofre pela sua arte e vemos na tela os seus textos – que foram escritos, na verdade, pela filósofa Viviane Mosé. É neles que se revela a verdadeira Camila, aquela que está perdida num mundo em transformação e não consegue encontrar seu verdadeiro lugar.
“Eu vou sofrer por dias e noites de solidão, vou perder os brilhos dos meus olhos”, digita Camila. Na tela, vemos Leandra Leal se transformando com uma sinceridade quase cruel. A personagem tanto incomoda como causa comoção.
